InVersos: Nilson Barcelli – Há cigarros assim


Hoje, um cigarro deu comigo,
no meio do deserto,
em desalinho.
O fumo tragava amenamente
o sol de uma só cor
e nem sombra de palavras
a espevitar o meu fogo tão mortiço.
Mergulhei em miragens desfocadas
ao alcance falacioso
de um gesto entorpecido.
Vagueei fixo
nas imagens trémulas
para além do horizonte da razão.
Da minha fortaleza,
abatida e conformada,
só enxergava a cidadela enevoada,
derrubada,
asfixiada de sons indecifráveis.
Não me evadi,
desertei cobardemente
para a jaula do silêncio dos meus verbos
nos braços de fantasmas abstractos.
Há cigarros assim…

Nilson Barcelli

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InVersos: Cristina Correia – Estranho tempo o tempo de espera


Estranho tempo o tempo de espera
Nas ruas que ninguém vê, as lágrimas rolam nos passeios
nas caixas…
há côdeas, há pobres,
muitos pobres… e fome que se esquece
e dizem os poetas o texto calado mudo surdo
vindimado
Estranho tempo o tempo de espera
É no despontar da noite ao alvorecer dos rios que adormecem as aves
sonham os olhos serenos por entre os flancos pálidos dos vales…
as árvores permanecem eternas
e a povoar o cântico das palavras encontro o texto branco dos pássaros
estranho tempo o tempo de espera
as pedras os passos os livros o olhar ínvio dos gatos
Escrevem-se os dias sem espaço de cor pardacenta
e dizem os poetas o texto calado mudo surdo
vindimado
nas ruas que ninguém vê, as lágrimas rolam nos passeios
nas caixas…
há côdeas, há pobres,
muitos pobres… e fome que se esquece
e dizem os poetas o texto calado mudo surdo
vindimado
solstício de mel, de aromas de vinho,
de canela, de lembranças e de bolinho,
sobre a toalha de renda um farnel recheado
na terra húmida
sente-se vibrar o trepidar forte da natureza mãe
Eis aqui os teus Filhos!
Ainda há abraços fraternos esquecidos.
No recinto sagrado das almas fizeram-se silêncios
e as chuvas caíram
durante três dias e três noites
na terra das palavras plantaram-se folhas de seda
sete abraços enfeitaram pedaços da terra do céu
sete liras cantaram melodias junto dos esquecidos
renasce o odor da terra
estranho tempo o tempo de espera.

Cristina Correia

InVersos: Manoel de Barros – A maior riqueza do Homem


A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

Manoel de Barros

InVersos: Maria José Quintela – inconciliável

a porta. o trinco cerrado. como cerradas estão as mãos
e a boca. e os dias de luz a des.luzir brilhos fátuos em
trajectória  de  adivinhação  e  queda  livre.  chão  de
pedras. sem tapete de pétalas.

o frio. na extensão dos dedos. hirtos. quase imóveis
no  gesto minucioso  de  desfazer  grãos  de  areia  na
engrenagem do pensamento.

um  dique.  um  plano  inclinado.  um  quadrado  geo
gráfico. na imensidão da distância que se conta em
silêncios e mede em palmos. de terra e de vincos. e
bermas sem flores.

o arco. que somos antes das margens se fecharem. o
muro e o tacto. o atrito da noite. a digitar códigos em
sequência de signos. irrespondíveis.

a alma. o corpo sem alfabeto. de guarda. ao argumento
inexacto de um grito cego que não descortina a forma
da boca.

inconciliável a garra e as asas. a guerra.

Maria José Quintela