InVersos: Ana Pereira – O Enforcamento


A folha branca arrefece
os astros de fogo
do espaço
escuro do coração.

A Solidão apaga-se
nas palavras graves
que me fazem
ecoar agudamente
dentro de grades
abertas em parágrafos desertos.

Silabo os versos
que escorrem como veneno
que fica contra a pele.
Sinto o sabor a fel
na minha boca.

Não falo contigo.
Não me ouves.
Escrevo-te.
De nada serve!
As Palavras são rígidas.
Apenas maleáveis com a voz.

O corpo torna-se
o rio que escorre lentamente
e contorna os desejos
que afasto com gestos fugitivos.
Fico imóvel,
mas deslizante.

Nada passa
pelo lado de fora,
quando me agarras
por dentro.
Abres-me.
Libertas o meu rosto
no espelho de água
onde me vês.
Suspiras para o céu
onde me crês.

Enforco-me, assim.
Perco a cabeça.
Tudo se reinicia.
Não fica indício
do enforcamento.
Este é o princípio
em ti,
meu amor.

Ana Pereira