InVersos: José Alberto Oliveira – Don’t be happy


Não sofrer menos do que nos destinam,
também não pretender mais por orgulho
ou virtude – habitar um subúrbio,
não escrever versos, ter um crédito
de dias malparado, adormecer culpado.

Não viver com mais ironia do que a vida
nos alcança, mas não desejar menos, por fadiga.
Qualquer sarcasmo seria o pretexto
da partida, mas se os cegos voltam ao conforto
da concertina, ao livro nocturno, por que decidir?

Nem eriçado de vícios, nem abundante em virtudes,
o acordo do senso comum com a sua paixão
e aguardar que aconteça o previsível por inesperado;
um passado perseguido por precauções e dúvidas,
um futuro vulnerável a todos os equívocos.

José Alberto Oliveira

InVersos: Margarida Piloto Garcia – Premonições


Não eram os silêncios que mantinham as bocas afastadas. Era mais aquela quietude do lugar vazio e a ansiedade rija dos dias preguiçosos e abandonados, onde a vida se estilhaçava.

No tempo, escondiam-se os gemidos do corpo a quererem ser quilómetros, enquanto corria atrás da premonição ditada pelo destino. Mas a estrada não era assim tão grande, reduzida que fora a meros centímetros de felicidade.

Desde pequeno que se fazia incólume às cicatrizes, numa astúcia visceralmente concebida, que os anos haviam de aperfeiçoar não dando hipótese a qualquer pedaço de alma remendado.

A mãe dissera-lhe que ele tinha em si esse dom, o código para decifrar sinas.

Nunca acreditara!

Talvez fossem sonhos, ou apenas desejos, aquilo que lhe fazia ver as coisas de uma outra forma, a adivinhar futuros roucos e respirados, na ânsia dos outros que não era a dele. Ele continuava imune ao que profetizava, o vento a assobiar-lhe nas sobrancelhas e as mãos presas na imperfeição seca dos lábios.

Até que tinha acontecido aquele dia!

Ela tinha surgido numa manhã de chuva, como uma arritmia nascida de trovões no peito, uma quase demência assimétrica que tanto o derramava em lágrimas, como lhe soltava o riso.

Tudo o que ele não era, emergia nela. Tudo o que almejava, despertava nela semente, flor e fruto. Nada existia a não ser o sorriso dela, a pele dela, a palavra pendurada no lábio rubro, o gesto tão angelical quanto demoníaco, com que o afagava e possuía. A vida destrambelhava-se louca e impúdica atrelada à premonição desvairada da felicidade eterna.

Porque só podia ser esse dom a dar-lhe tantas certezas, enquanto ele se atrevia a imaginar uma vagarosa eternidade! Nunca sequer lhe tinha passado pela cabeça, que as premonições só servissem aos outros e lhe estivessem negadas e encerradas na fria escuridão.

Agora, passados alguns anos, só sentia mágoa da sua incompetência. Tomara por premonição o sonho e o desejo e descansara no filho da mãe de um destino anunciado e prometido.

E não fora ele o arauto dessa desgraça?

Para quê o esforço inaudito se afinal tudo estava previsto?

Ela passou por ele e seguiu, tão forte como um guerreiro, tão insubmissa e decisiva quanto um sinal vermelho. Ele não percebeu nada, agarrado à fatalidade de uma premonição, sem entender o terror da solidão nas veias.

Agora o silêncio espreguiçava-se nele a consumi-lo numa indolência ofensiva. Na cama vazia não havia odores de sexo selvagem, nem gritos, nem palavras gemidas. No futuro só existia ele, sem espaço para sonhar, sem uma única premonição acertada.

Afinal, tudo o que ele sempre tinha querido, era a incerteza do destino e mãos como asas para voar.

Margarida Piloto Garcia

InVersos: Fernando Namora: Poema para iludir a vida


Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos
[portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje
[o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.

Fernando Namora

InVersos: Guimarães Rosa – Todas as águas dormem


Há uma hora certa,
no meio de noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas de folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…

Mas nem todos dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

Guimarães Rosa