InVersos: Xavier Zarco – O poema da minha rua


o poema da minha rua teima
em negar a rotação
da terra
enquanto se deita a ver
o sol que nasce e se ergue e se põe
imagina o mesmo que outros
antes dele imaginaram
uma espécie de orfeu e de eurídice
para o sol e a lua
por vezes ambos surgem nas alturas
talvez
diz o poema
seja efeito da música de orfeu
que seus próprios sentidos engana
talvez
como talvez a terra gire em torno
do sol talvez
como talvez não seja efeito algum
de música alguma
mas dos copos bebidos ao final
da tarde no café da dona isilda
e do senhor agostinho
no mercado das almas de freire
talvez
mas não é talvez
a altura em que o poema se consola
livre que está de cirurgias
mesmo que estéticas
dormindo inacabado no caderno
sonhando desejando ali ficar
simplesmente inacabado
porque poema algum deseja o fim
sufocar entre páginas de um livro
condenado ao pó
ao pó da indiferença
enquanto isso
o poeta despede-se do verso
do último verso escrito
como se alguma vez se despedisse
bebe cerveja e pergunta
artur
como andam os gatos

Xavier Zarco

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InVersos: Ana Pereira – O Enforcamento


A folha branca arrefece
os astros de fogo
do espaço
escuro do coração.

A Solidão apaga-se
nas palavras graves
que me fazem
ecoar agudamente
dentro de grades
abertas em parágrafos desertos.

Silabo os versos
que escorrem como veneno
que fica contra a pele.
Sinto o sabor a fel
na minha boca.

Não falo contigo.
Não me ouves.
Escrevo-te.
De nada serve!
As Palavras são rígidas.
Apenas maleáveis com a voz.

O corpo torna-se
o rio que escorre lentamente
e contorna os desejos
que afasto com gestos fugitivos.
Fico imóvel,
mas deslizante.

Nada passa
pelo lado de fora,
quando me agarras
por dentro.
Abres-me.
Libertas o meu rosto
no espelho de água
onde me vês.
Suspiras para o céu
onde me crês.

Enforco-me, assim.
Perco a cabeça.
Tudo se reinicia.
Não fica indício
do enforcamento.
Este é o princípio
em ti,
meu amor.

Ana Pereira

InVersos: Sónia M – Tudo à volta se move


Tudo à volta se move.
É firme e seca a terra
e eu sinto que as águas me engolem.

Julguei-me o sonho
mas dele
não sou mais que a névoa.

O provável que afastas
com medo que arda.
A poeira pousada no vestido transparente
da solidão que persegues.

Baixo os braços
cansada
de ficar frente às luzes que acendes.
Uma a uma sopro-as.
A dor tacteia as paredes
mas eu sou
o escuro do quarto que a cega.

Enquanto o silêncio alucina ainda
com o gemido de outras noites
eu emerjo do fundo do poço
sem que os meus lábios beijem as águas.

Sónia M

InVersos: Libânia Madureira – Saudade


A saudade
ofusca-me os dias
tolda-me o pensamento

A tua ausência
são cardos dos dias
que vou vivendo a exorcizar a insónia
essa falta
hoje tão presente
a cada instante
dentro de mim,
turvando meu olhar.

A saudade
ofusca-me os dias,
veste de silêncios as palavras
que por entre as mais se exilam
nos fios de areia quente
das horas estéreis
da ampulheta vigilante.

Tolda-me o pensamento
por entre cristais de silêncios
que imergem na noite escura e fria
da ausência dos sorrisos
que ecoavam pela casa.

Hoje,
a palavra saudade
trespassa
e ofusca as noites estreladas
das conversas inacabadas
e sentimentos indecifráveis.

Amanhã,
espero a brisa do sorriso
que adentra o meu ser do presente,
na construção
das lembranças futuras…

Libânia Madureira