InVersos: Maria da Fonte – Despotismo

Esta morte sem rosto
que me espera, esta vida
já mais que embaciada,
esta falta de sorte (quem me dera!)
de ser mais que o vazio, ser o nada.

Esta esfinge roçada pelo medo,
esta bravura de matar
quem já morreu, este mundo
redondo onde me enrolo,
na incerteza sequer de que fui eu.

Esta intriga fechada,
deprimente, esta tela descorada
e encardida, este pintar, este dizer
omnipotente,
esta morte apagando esta vida.

Maria da Fonte

Anúncios

InVersos: Cecília Vilas Boas – Sem pressa… a não ser pelos dias simples


Há dias que sinto o aroma das coisas simples
Talvez por que me interesso, nesses dias, por coisas simples
Há dias que nada sinto
Há dias que tudo é simples e os pássaros cantam a aragem dos mesmos dias, simples

Nesses dias, tudo me lembra o amor
Um pássaro, um raio de sol, um rasgo de azul que pinta o céu
Consigo saborear a aragem do mar, sinto-a na pele, cheiro-a e adivinho os desenhos dos corais

Nunca mais morrerei, a não ser que seja num dia simples

Não tenho pressa, por que haveria de ter pressa…?

Quero a lucidez dos dias simples, o toque do vento no meu rosto
Vou para onde ele me levar, em qualquer dia simples
É no colo dos dias simples que me embalo, choro e sorrio
Mas também vivo nos dias de frio, por vezes frio excessivo
Aceito-os porque sei que os dias simples voltarão

Espero-os sempre, num ou noutro dia
Lembro à minha mente o desejo de sentir a quietude que a vida me prometeu
E nesses momentos fico em mim, sossegadamente
À espera dos dias simples.

Cecília Vilas Boas

InVersos: Ricardo Vercesi – Navegando na tua memória

Deixei as certezas na praia
Quando a última onda te levou
E as gaivotas choraram a perda.

Em cada grão de areia
Uma estrela te acolheu
No sal que deixaste preso a mim.

Foste a maré que me trouxe aqui
A saudade de quem parte para a tempestade.
Foste a minha plenitude, a minha verdade.

As marés não pararam o seu balanço.
As gaivotas continuam à tua procura
Na espuma de cada onda que beija a costa.

E eu fico sentado, ali, chorando cada lágrima
Como se mais uma memória tua me sorrisse
E me banhasse na nossa história.

Por fim viajo em mais uma fase da Lua
Regressando sempre ao mesmo lugar
Esta saudade minha e tua será sempre nossa

Seremos sempre nós a navegar.

Ricardo Vercesi