InVersos: António Jacinto – Teresa mulata!

Essa mulata Teresa
Tirada lá do sobrado
Por um preto d’Ambaca
Bem vestido,
Bem falante,
Escrevendo que nem nos livros!

Teresa Mulata
– alumbramento de muito moço –
Pegada por um pobre d’Ambaca
Fez passar muitas conversas
Andou na boca de donos e donas…

Quê da mulata Teresa?

A história da Teresa mulata…
Hum…
Vôvô Bartolomé enlanguescido em carcomida cadeira adormeceu
O sol coando das mulembeiras veio brincar com as moscas nos
[lábios
Ressequidos que sorriem
Chiu! Vôvô tá dormindo!
O moço d’Ambaca sonhando…

António Jacinto

Anúncios

InVersos: Maria Azenha – Vejo crescer a lua

Chamo-te
tal como outrora:

as raízes das árvores
estão fazendo o inverno numa jaula
debaixo do solo

a que nasceu com um vestido branco de sombra
está sonhando ainda num cavalo de névoa

e o vento chegou com o seu leque de água
no lugar antigo do orvalho
como se estivesse sufocando
para dentro de uma pedra

há um colar de penumbra
enrolado ao pescoço
com frases que rangem no quadrado do quarto
no fundo de um poço

alguém que não conheço e vem do lugar da noite
com escorpiões nos braços
desce as escadas no mistério de uma abelha
no espaço do tronco

vejo crescer a lua
para dentro do cárcere de agosto
com um chapéu de abandono de folhas secas
e parcas

a minha sombra cai dentro da sombra
sem que de si possa lembrar-se

maria azenha

InVersos: Manuel Bandeira – Madrigal Melancólico

O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.

A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
— Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento.
Graça que perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi,
Não é a irmã que já perdi,
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti — lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.

Manuel Bandeira

InVersos: Adalgisa Nery – Chove dentro da minha alma

Ouço bem a chuva que dentro da minha alma cai.
Debruço-me num tempo erguido pela nostalgia
e a chuva é mais fria.
Procuro em meu coração uma tristeza qualquer;
talvez assim encontre aquecimento
e mude o ritmo da chuva
por algum momento.
Busca em vão.
A chuva continua em compasso firme e lento
desacompanhada de vento.
Procuro em meu coração
um segundo de descanso
e talvez de exultação;
novamente recorri em vão.
Chove dentro da minha alma
o pranto das noites frias
e das inumeráveis tristezas sem razão.

Adalgisa Nery