InVersos: Manuela Carneiro – Sã


Os loucos são mais loucos de serem lúcidos,
sinceros dos mundos que intuem, velam,
dos deuses os ângulos sábios das paredes

Por isso conquistam a morte nos muros,
empedram a serenidade na promessa exacta,
mastigam pêssegos infinitos na tremura da língua,
reviram os olhos de caroços que rodam e rodam

E babam e babam, escorrem a terra de lábios que lambem e lambem,
chupam na fruta a seiva profunda, o suco da carne alienígena,
espancam os dentes frenéticos na precisão demente do açúcar

Oh! quero um espaço vazio e uma mesa para escrever-lhes

São os eleitos da criação, elucidados e absolvidos,
o entendimento na alucinação das orbitas gustativas

Mostram os lábios sangrados na repetição das unhas,
porque a árvore dedilhada reside-lhes dentro
e irrompem fundo os dedos na boca para trazê-la,
arrastá-la de sangue, desmembrada de braços e raízes,
os deuses pelo veludo descarnado dos pêssegos

Tenho beijos e beijos na boca para esses loucos,
para o tempo que respiram e vomitam as vísceras

Mãos para pentear-lhes os cabelos, demoradamente,
suavemente deslizar-lhes a pele de lábios e línguas

Passa um pássaro, olham e seguem, os ossos

já não voltam

Que tempo e asas levam

Desenham mapas contínuos na migração das aves,
podem a felicidade nessa abalada ininterrupta,
a alma alheada pela loucura apaziguada e livre

Como planam doces as pedras na polpa da fruta

Oh! quero um espaço vazio e uma mesa para escrever-lhes,
cartas e mais cartas, cestos e cestos de melaço

Quero os dentes dos loucos que trincam e trincam, sempre
as línguas geminadas que lambem e lambem e torcem,
a saliva urgente com que serenam os olhos, expurgam o sangue,
a loucura das asas saciadas, brancas, soltas pelo granito

Preciso banhar-me na polpa, no suco dessa demência sã

Manuela Carneiro

InVersos: Manuela Carneiro – Tempo

O tempo é uma substância volátil, arredia e mole
Calma e inesperada, que se esvazia e enche como um balão ou fole
Uma substância vaga, desequilibrada e implexa, de alma inconstante
Que se dissipa e brota a qualquer instante

Assim, de mim se afasta se o procuro
Toca-me e arrebata-me, se dele me canso e me despeço
A mim se apega e em mim se enlaça quando lhe fujo
Enrola-me e envolve-me de amor quando não peço

O tempo é tudo o que urge quando sobeja
Tudo o que de mim se aparta, se acaso a vontade almeja

Quando me esfalfo e o quero, de mim se afasta
Quando dele prescindo, em mim se enrola, julga, condena e caça

O tempo é um amante frívolo e indeciso, que prende e embaraça
Uma alma doce, que descubro amarga se me desalenta
Um compasso brusco, se me apraz com pressa e me encontro lenta
È sol quando eu sou nuvem, transparente se sou lodo ou água turva

O tempo é uma maleita, uma cisma sem amparo ou cura
Uma paixão platónica, sofrida e insegura que perdura
Um amor desgarrado, uma intensa vontade de procura

Com ele me estendo, sonho e medito
Baralho-me e contento-me num eterno delito

Manuela Carneiro