InVersos: Sophia de Mello Breyner Andresen – Os espelhos


Os espelhos acendem o seu brilho todo o dia
Nunca são baços
E mesmo sob a pálpebra da treva
Sua lisa pupila cintila e fita
Como a pupila do gato
Eles nos reflectem. Nunca nos decoram

Porém é só na penumbra da hora tardia
Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio
Que à tona dos espelhos aflora
A luz que os habita e nos apaga:
Luz arrancada
Ao interior de um fogo frio e vítreo

Sophia de Mello Breyner Andresen

InVersos: Manuela Barroso – Troco os meus olhares


Troco os meus olhares com a quietude dos peixes
e vagueio numa ondulação combinada
com o arrepio mastigado das águas
que morrem na indiferença das horas.

Nem o feitiço da luz em relâmpagos no seio das águas lisas
me acordam deste flutuar harmonioso e sereno
numa fusão clandestina
entre o profano e o sagrado.

O meu caminho abre-se
nas clareiras profundas e brancas das areias
em janelas de rostos cristalinos
onde procuro repousar este destino.

Aí,
sou a casa abandonada
no navio que perdeu o leme
e deixou a esperança da alegria
na linguagem impaciente dos mastros

Nem a tarde nem a noite acordam a cumplicidade silenciosa
destas solitárias ondas.

Nelas, abandono as memórias
na quietude da sombra dos juncos.

Manuela Barroso

InVersos: joanna.franko – Piedade Araújo Sol


Passeio os olhos , tudo tão
Intenso, e vejo
Em tantas belezas
Despertar de formas
As mil nuances
Da natureza
Em suaves contornos..
A vida que
Renasce
A cada detalhe
Um sutil entalhe
Juntando pedaços, em
Obra de arte..
São tantos adornos
O universo em cores
Levita em beleza, forma e odores..
Para quem pode ver,
uma gota d´agua
pode trazer em si
o oceano..

joanna.franko