InVersos: Álvaro de Campos – Todas as cartas de amor são ridículas


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos

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InVersos: Firmino Mendes – Ofício do Amor


Marcaram a festa para o dia das avelãs
o dia interior dos olhares longínquos, dos sonhos
das ligações às estrelas mais antigas
Chamara os pastores de todas as montanhas
com seus odres cheios de néctar de medronho
e amoras, com suas flautas de madeira nova
E quando chegararn os adivinhadores pelo trevo
acompanhavam o movimento dos campos
o crescimento dos lírios, os voos nocturnos
a medida da sombra

Os vendedores de nêsperas faziam previsões
sobre o tempo que faria no dia das avelãs:
-“Luz excessiva, brasas, dança de meteoritos
Cinzas de nácar sobre os rios. ”
E os amantes
escureciam as mãos com outras sombras

Na terra quente, onde se devoram minérios
No caminho mais simples
há um assombroso bailado de suor

Abre-se uma sombra contínua
para os dias mais verdes e azuis
E atravessa a desmedida

Chegamos ao mar, às colinas frescas da tarde
com algas surpreendidas pela luz

Cruzados no chão, adormecemos tarde
ao lado das cortinas

Firmino Mendes

InVersos: Natália Correia – Fiz um conto para me embalar


Fiz com as fadas uma aliança.
A deste conto nunca contar.
Mas como ainda sou criança
Quero a mim própria embalar.

Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.

Rosas fatais, as três donzelas
A mão de espuma as desfolhou.
Nenhum soube para qual delas
O príncipe do mar cantou.

Natália Correia

InVersos: Al Berto – Não cantes


olha em redor dos bosques e veredas destruídas
pela explosão devastadora das minas e ouve
as vozes límpidas morrerem no poema

antes e depois da alegria
antes e depois de pânico

grava na parede esboroada do ar
o sulco ténue da infância – e fala-me dela
aproxima-te
para veres o horror tranquilo das imagens
no fundo dos meus olhos

antes e depois da alegria
antes e depois do pânico

debruça-te naquele terraço virado ao inimigo
onde um rosto de estuque arde e
um ferro reduziu a memória a nada

antes e depois da alegria
antes e depois do pânico

em volta das casas demolidas o anoitecer
o lume incontrolável – e alguém
atravessa o deserto
com uma criança de jade nos braços

antes e depois da alegria
antes e depois do pânicos
mas sempre durante o sofrimento

não cantes

al berto