InVersos: Francisco Gonçalves de Oliveira – As árvores do sonho


Não tenho inveja dos poetas.

Também sei enrolar e desenrolar
as tranças do vento
e plantar no charco do tempo
as árvores do sonho.

Não tenho inveja dos poetas.

Também sei montar e desmontar
o cavalo do silêncio
e descobrir
no arfar das tempestades
um búzio de esperança.

Não tenho inveja dos poetas.

Sei adormecer e acordar
dentro do quotidiano.

Francisco Gonçalves de Oliveira

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InVersos: Manuel Feliciano – A terra não é mulher


A terra não é mulher
Mulher é fruto de palavras claras
Que habitam o corpo
Quando o corpo anoitece
E não lhe habitam estrelas
Embora na pele lhe nasça trigo
E nas rubras flores os lábios
E nas gotas de orvalho as lágrimas
Na noite tuas pálpebras fechadas
E na luz da manhã teus olhos em flor
A terra não é mulher
Mulher é trigo fora desse trigo de sol e vento
O rosto e o colo que a terra não conhece
A alma que afaga o corpo tão lasso
Que desmaia ao iniciar da lua
É o sabor e o cheiro das flores em beijo
As pálpebras que a terra nunca teve
De olhos interiormente iluminados
As sílabas que a terra não sabe dizer
Onde os rios nascem e há crianças ao sol!

Manuel Feliciano

InVersos: Joaquim Evónio – As ‘Guerras’ de Maria


Arma em riste. Pólvora. Fumo.
Soldado. Granada. Canhão.
Víboras de fogo. Matraqueada.
Bomba. Morteiro. Explosão.

Pés rotos,
cabeça rasgada,
mão sem mão que aponta para nada…
Homem sem Homem,
lobo de si!…

Carne quente,
ossos rubros,
ferro torcido e só…
Ar-noite, selva, lamaçal,
terra, húmus sanguinal…

Silêncio, uivo, grasnido,
mistério, dor, solidão!
Noite, hienas, banquete,
restos, abutres, putrefacção

E tu,
que já nada eras,
pior que as outras feras
ao trair o teu irmão…

Agora és pó.
Lama.
Chão!

joaquim evónio

InVersos: Sérgio Godinho – Arranja-me um emprego


Tu precisas tanto de amor e de sossego
– Eu preciso dum emprego
Se mo arranjares eu dou-te o que é preciso
– Por exemplo o Paraíso
Ando ao Deus-dará, perdido nestas ruas
Vou ser mais sincero, sinto que ando às arrecuas
Preciso de galgar as escadas do sucesso
E por isso é que eu te peço

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

Se meto os pés para dentro, a partir de agora
Eu meto-os para fora
Se dizia o que penso, eu posso estar atento
E pensar para dentro
Se queres que seja duro, muito bem eu serei duro
Se queres que seja doce, serei doce, ai isso juro
Eu quero é ser o tal
E como o tal reconhecido
Assim, digo-te ao ouvido

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

Sabendo que as minhas intenções são das mais sérias
Partamos para férias
Mas para ter férias é preciso ter emprego
– Espera aí que eu já lá chego
Agora pensa numa casa com o mar ali ao pé
E nós os dois a brindarmos com rosé
Esqueço-me de tudo com um por-do-sol assim
– Chega aqui ao pé de mim

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

Se eu mandasse neles, os teus trabalhadores
Seriam uns amores
Greves era só das seis e meia às sete
Em frente ao cacetete
Primeiro de Maio só de quinze em quinze anos
Feriado em Abril só no dia dos enganos
Reivindicações quanto baste mas non tropo
– Anda beber mais um copo

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

Sérgio Godinho

InVersos: Jefferson Dieckman – Notas Distorcidas


Aquela era uma banda
Diferente
Eles tocavam com instrumentos
Desafinados…
E a sua música era assim…
Saía assim…
Com instrumentos
Desafinados…
De propósito,
Por gosto,
Por querer…
Eles queriam
Assim,
Dessa forma…
Bem assim…
A vida deles
Fora dos palcos
Não ia bem…
Casamentos terminados,
Desentendimentos,
Finanças abaladas…
Mas, afinal
A desafinação
Na vida
Não era normal
Também?

Jefferson Dieckmann