InVersos: Valter Guerreiro – Navegar é Preciso


Sou aditivo dos horizontes que me fogem tímidos ao olhar
E há muito que a alma me observa dos longes inacessíveis

Respiro apenas dos pulmões das palavras inauditas
E o corpo alheia-se vagamente da febre das mãos

Pairo inútil no assombro da minha ignóbil desutilidade
E ignoro o mais leve justificativo para mover o corpo

Escrevo porque não tenho aonde ir
E não me sinto ridículo

Quem da solidão não morre
Vive a fingir

Palavra a palavra como remos
Folha a folha como mar

É um barco que escrevemos

Que poesia é navegar!

Valter Guerreiro

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InVersos: Valter Guerreiro – A Lua


Gosto da lua nos flancos da noite
Onde nem os grilos cantam
Só eu.
E ao silêncio peço que me acoite
E ao sol que não venha
Que o sonho é meu
É vasta e funda a intimidade com as azuis raízes do céu
E chovem de todos os poros os fluidos da estupefacção
E ninguém responde
E dos flancos da lua sorvo a prateada solidão das coisas
Na inalação dos detritos antigos do meu vulgar desastre
Negra de cristais de incenso e nua
É a cor deste reciclado espanto
E digo: boa noite meu amor,
Como é bonita a lua!

Valter Guerreiro