InVersos: Rui Diniz – Pátio Gaivota


Apercebo-me que estou perto.
Um arrepio atravessa-me.
Há muitos anos não estou tão próximo
deste lugar incerto.
Saí de casa um menino,
procurando a lucidez
entre o sábio e o divino,
encontrando na viagem,
nitidez.
Ali está ela,
a casa do canto,
com a mesma porta…
e à volta dela
o mesmo encanto,
do perdido Pátio Gaivota…
Nos vasos, outras flores,
no ar, já sem o veneno
das passadas dores,
transpira um trapo
mais sereno…

A porta abre-se,
revela uma criança de sorriso ardente,
o mesmo sorriso ingénuo
agora de mim tão ausente!
É filha de alguém feliz!
Refugio a vergonha
por detrás de um cigarro,
e quando de lá dentro alguém diz
“Cuidado com algum carro!”…
a criança sonha!
O infante brinca indiferente,
alheio à minha tortura,
infligida pela lembrança
da negrura
desse Pátio Gaivota
do meu tempo de criança!
E este olhar pungente
o meu saber não enxota!
A criança passa correndo
e sou eu que vou lá,
brincando,
ardendo,
sonhando,
perdendo,
fumando,
esquecendo…
que a criança sofrendo,
afinal,
já lá não está.

Rui Diniz

InVersos: Valter Guerreiro – A Lua


Gosto da lua nos flancos da noite
Onde nem os grilos cantam
Só eu.
E ao silêncio peço que me acoite
E ao sol que não venha
Que o sonho é meu
É vasta e funda a intimidade com as azuis raízes do céu
E chovem de todos os poros os fluidos da estupefacção
E ninguém responde
E dos flancos da lua sorvo a prateada solidão das coisas
Na inalação dos detritos antigos do meu vulgar desastre
Negra de cristais de incenso e nua
É a cor deste reciclado espanto
E digo: boa noite meu amor,
Como é bonita a lua!

Valter Guerreiro

InVersos: Lídia Jorge – Cai a chuva no portal


Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa cortina
Não a corras, não a rasgues, está caindo
Fina chuva no portal da nossa vida.
Gotas caem separando-nos do mundo
Para vivermos em paz a nossa vida.

Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa toalha
Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo
Chuva fina no portal da nossa casa.
Por um dia todos longe e nós dormindo
Lado a lado, como páginas dum livro.

Lídia Jorge

InVersos: Luís Pedro Viana – A chuva fina


Miúda e lenta, leve,
Passeia nos meus olhos
Brilhantes cristais pequenos
Cobrindo como manto a cinza atmosfera.
Miúda e lenta menina,
Terna em sossego
Pequenina, muito fina,
Acalma a fúria entre o sonho
No real fogo da fera.
Menina sem voz e canto denso,
Sempre leve com seu manto
Da cor da cinza atmosfera.
Contemplo esta dança do céu
Sem a pressa enervante e lentamente
Anunciar um nascer imaginário
De filhos novos crescendo,
Num simbólico perpétuo movimento
Para dar vida como as contas dum rosário.
É agradável se a sentires igual
Ao borbulhar do champanhe numa festa.
Contínua a dança desta noiva,
Aparece miúda e leve;
Mas alegre!
Desce pequenina, miúda e lenta, leve,
A natureza que te espera como mãe
Se alimenta no ventre, que seja para
Sempre, miúda e lenta…
Não tão breve.

Luís Pedro Viana