InVersos: Quadras Populares a São João

Ninguém se sente sozinho
na noite de S. João
O de mais longe é vizinho,
o de mais perto é irmão.

Com a tua mão presa à minha
fui à fonte e não bebi,
estranha sede que tinha,
era só sede de ti!

Deixaste-me só na rua,
hoje, amor, por brincadeira.
E lenha que não foi tua,
fez-me arder a noite inteira.

É tua boca vermelha
um bonito cravo aberto.
Cuidado com uma abelha
que anda a zumbir muito perto.

InVersos: Pedro Homem de Mello – Solidão


Ó solidão! À noite, quando, estranho,
Vagueio sem destino, pelas ruas,
O mar todo é de pedra… E continuas.
Todo o vento é poeira… E continuas.
A Lua, fria, pesa… E continuas.
Uma hora passa e outra… E continuas.
Nas minhas mãos vazias continuas,
No meu sexo indomável continuas,
Na minha branca insónia continuas,
Paro como quem foge. E continuas.
Chamo por toda a gente. E continuas.
Ninguém me ouve. Ninguém! E continuas.
Invento um verso… E rasgo-o. E continuas.
Eterna, continuas…
Mas sei por fim que sou do teu tamanho!

Pedro Homem de Mello

InVersos: Quadras Populares a Santo António

[vimeo www.vimeo.com/68234823]
Santo António! Santo António!
Ó meu santo milagreiro!
Arranja uma moça bonita
para um rapaz solteiro!

Ó meu rico Santo António
ao colo tens o Menino,
põe-me a mim no outro braço
que ainda sou pequenino!

Santo António de Lisboa,
guardador dos Olivais,
guardai a minha azeitona
do biquinho do pardais!

Santo António é tão santo
que livrou seu pai da morte!
Bem podia o Santo António
dar-me uma bonita sorte!

InVersos: Ary dos Santos – Poeta castrado, não!

[vimeo www.vimeo.com/67997009]
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
– é tão vulgar que nos cansa –
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
– a morte é branda e letal –
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
– Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
– Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Ary dos Santos