InVersos: Florentino Alvim Barroso – Espectro

Quem sou eu, donde vim, para onde vou?
Serei quem sinto ser-me, quando sinto?
Ou eu serei, apenas, esse absinto,
Que, outro bebeu e, a mim, me embriagou?

Como a loucura, transtornado estou,
Confuso e torvo como um labirinto.
Ao pressentir, porque me pressinto,
Eu não sei se sou eu, ou se não sou.

De que consiste a minha realidade?
Um fantasma, que surge e me intimida,
Como a mentira em face da verdade?

Página à toa lida e decorada,
Com palavras vãs se explica a Vida,
Se, a ignorância, não explica nada?

Florentino Alvim Barroso

Lido e produzido por Rui Diniz

Música:
Sundancer – “Dark Horizon”

InVersos: Florentino Alvim Barroso – Os Contrários

Eu vi cair a árvore no monte,
Ao fio do machado lenhador,
Como se fora o dia no horizonte,
Caindo, às trovoadas, ao Sol-pôr.

E, vendo-a, derrubada, a mim, defronte
(Corpo, de herói, perdido o destemor),
Era, alterado, o curso duma fonte,
Sobre a sede dum chão, que dera flor.

Foi quando, sobranceiro, um voo de ave,
Passou, volteando a árvore caída,
Ora, piando aflita, ora, suave.

Certo, buscava o ninho e a prole nascida.
E, eu (como ela, aflito, instante e grave),
Também não tive onde poisar a Vida!…

Florentino Alvim Barroso

Lido e produzido por Rui Diniz

Música:
Tryad – “Listen”

InVersos: Florentino Alvim Barroso – Homem


Acredite no homem quem quiser.
Eu nele acreditar, não acredito:
Sempre vi, onde um homem estiver,
Ou a hipocrisia ou o delito.

Diga-se dele o bem que se disser
Seu proceder conspurca-lhe o seu rito.
Pois onde um homem num lugar houver,
Mais do que um homem bom, ha um maldito.

Decerto ele tem suas bondades:
Algumas para ver se vai pró Céu,
Outras, unicamente por vaidades.

Este é o homem, descerrado o véu.
Fosse bom a sua cadeia era sem grades,
O juiz, p’ra apenar não tinha réu. . .

Florentino Alvim Barroso