InVersos: Teresa Almeida Subtil – Despida

Chamaram-me à rua do Carmo
para me perguntarem: que escreves tu?
E eu, sem saber por onde vou, respondo:
está nu o meu verso, sem arpejo,
a rima anda solta nos poemas que leio,
nos peitoris das janelas que namoram o Tejo,
mesmo que o não vejam.

Cegos os meus versos dão-se aos dedos
para que apertem os desejos e as penas,
deambulem pelas ruas desoladas,
roubem as cordas às guitarras e toquem,
toquem uma melodia que encha as frinchas da noite,
que ressuscitem a trilha e a harmonia,
que encontrem a poesia perdida algures,
despida.

Teresa Almeida Subtil

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Jonathan James – “Winter Dreams part I”
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Fotografia: Elisabetta Foco
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InVersos: Lídia Borges – Não desistas já de mim, Poesia

Não desistas de mim, Poesia.
Deixa-te ficar aí sentada
nesse degrau da escada
onde pacientemente me esperas.

Em breve
quando se desvanecer o alvoroço
a que me dou e a quietude vier de novo
morar em mim…
Em breve, poderei receber-te com braços
De bem- querer.
Não agora.
Não agora que não estou trajada para ti.

Perdoa-me este súbito exílio
este coração fechado a tonalidades
e brilhos . Cores, magnificências…

Ainda assim, Poesia,
Não vás, ainda.
Não desistas de mim.

Lídia Borges

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Chris Fields – “Floating”
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InVersos: Lídia Borges – E partiu de novo

Trazia viagens na mala
Mas tantas por cumprir.

Trazia terra nas mãos
Mas migalha a que abraçava em raízes.
Trazia tanta água nos olhos
Mas nenhuma lhe apagava as ausências.

Em si tanto se demoravam as esperas
que um dia, ao acordar, descobriu-se a ave
e cantou longe da voz que lhe anoitecera
a garganta.
Letra a letra rasgou o deserto que lhe secava
nas mãos.
E partiu de novo…

Lídia Borges

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: thirty3 – “Session 1”
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InVersos: Lídia Borges – As mãos vazias

As mãos vazias de temporais
de tragédias, de grandezas,
regressam da cidade
sem promessas de paz ou abundância.

Nos campos, a ondulação do pão
perdeu-se do vento e, nas casas,
portas e janelas batem
umas atrás das outras.

Tremulam borboletas de frio e sombra no silêncio
e os homens espalmam-se
contra as paredes a fumar e a navegar
azuladas ondas de fumo,
enquanto os cães vadios
devoram tudo, ao longe.

A terra posa debaixo dos pés
E a prosa, contra a mina vontade,
Ganha limos e lodos como um bote carcomido
à beira de se afundar.

Arranco da poesia
um ramo onde canta um rouxinol
e com ele faço uma jangada para atravessar
o novo dia que já la vem.

Lídia Borges

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Dejan Ilijic – “Abre Makedonce”
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InVersos: Lídia Borges – Da sede ao cardo

Uma casa ao sol
no alto da colina.

Assim podia ser dito
setembro antes da floração
dos cardos.

A luz a rolar mansa
pelas encostas,
uma cantiga de água
aos rés do muro.
Um rebanho de sorrisos
inocentes
a pedir pastoreio.

Um certo modo
de levar à boca o poema
setembro.

Que é das sedas das tuas sílabas
Na minha língua?

Palato, infância
Mãe.

Lídia Borges

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Jonathan James – “The Cherry Now II”
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InVersos: Sofia – É sempre breve

é sempre breve
o tempo de colher
eternidades

longínquo é o instante
de se ajustar
aos ponteiros voláteis
desse mosaico
de ilusões

dos teus lábios
[chama de inenarráveis
intenções]
acolho o que me acolhe
na contramão dos afetos
e sobretudo
a negritude desse chão
onde agora
estendo um alfarrábio
de timbres e estrelas
para que nele adivinhe
a luz percorrendo -me os horizontes
pontuando o tempo
com inabalável exatidão

Sofia

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Dmitry Krasnoukhov – “On the Wave’s Wings”
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Fotografia: Katie Salerno
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InVersos: Manuel Pintor – TV te vês

quem és
no que tu vês
ventríloquo das falas do mundo
pedestal de farsas
de janelas os disfarces
alçapões de verdade
esquecida
sob mantos brancos de mentira

quase me gritas
a ânsia cega
o ócio incestuoso das vaidades
sem vislumbre de pudor
agonizante
em fátuos falsetes
hipérboles arrebatadas

quem és
da vã loucura
no ventre sangrento do mundo
que palavra sagrada
me unges decapitada
e não me ditas

quase me dizes
a hora que desfalece
e calas do embrião a semente
florescente dos tempos
que silêncio incólume
alguma vez desvanece

quase vejo
sem sequer t’ver

Manuel Pintor

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Margaret Maria Tobolowska – “Magik”
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Efeitos Sonoros por connum e qubodup em
Freesound.org
Fotografia: Tookapic
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