InVersos: Almeida Garrett – O Natal em Londres

Que Natal este! – sempre sois herejes,
Meus amigos Ingleses.
Bem haja o Santo Padre, e as suas bulas
De fulminante anátema,
Que excomungou estes ilhéus descridos:
Oh! nunca a mão lhe doa
– Ver na minha católica Lisboa
As festas de tal noite!
Sinos a repicar, moças aos bandos
Com a bem trajada capa,
E o alvo teso lenço em coca airosa,
Donde um par de olhos negros
Dão as boas festas ao vivaz desejo
Do tafulo devoto
Que embuçado acudiu no seu capote
À pactuada igreja!
Natal da minha terra, que lembranças
Saudosas e devotas
Tenho de tuas festas tão gulosas
E de teus dias santos
Tão folgados e alegres! Como vinhas
Nos frios de dezembro
De regalados fartes coroado
Aquecer corpo e alma
Com o vinho quente, com os mexidos ovos,
E farta comezana!
E estes excomungados protestantes,
(Olhem que bruta gente)
Sempre casmurros, sempre enregelados
Bebendo no seu ale,
E tasquinhando na carnal montanha
Do beef cru e insípido!
Pois os Christmas-pyes, gabado esmero
De sarmatas manjares!…
Olhem estas pequenas: são bonitas;
Mas que importa que o sejam
Se das Graças donosas praguejadas,
Rústicas e selvagens,
Nem dança airosa, nem alegre jogo
De divertidas prendas
Arranjar sabem, e passar o tempo
Em honesto folguedo.
Jogar um Whist morno e taciturno,
Sentar-se em mona roda
Junto ao fogão, fazer um detestável
Chá preto e fedorento,
Sem ar, sem graça… – Oh madre natureza,
Quanto mal empregaste
A formosura, o mimo, as lindas cores
Que a tais estátuas deste!

Almeida Garrett

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Alan Marchand – “Cuchi Fedex Man”
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InVersos: Almeida Garrett – Olhos Negros


Por teus olhos negros, negros,
Trago eu negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores…
E eles a dizer que não.

E mais não quero outros olhos,
Negros, negros como são;
Que os azuis dão muita esp’rança
Mas fiar-me eu neles, não.

Só negros, negros os quero;
Que, em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim…
Nunca mais dizem que não.

Almeida Garrett

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Daniel Estrem – “Largo from Trio Sonata TWV 42 E7” (Telemann)
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InVersos: Almeida Garrett – A Délia

Cuidas tu que a rosa chora,
Que é tamanha a sua dor,
Quando, já passada a aurora,
O Sol, ardente de amor,
Com seus beijos a devora?
– Feche virgíneo pudor
O que inda é botão agora
E amanhã há-de ser flor;
Mas ela é rosa nesta hora,
Rosa no aroma e na cor.

– Para amanhã o prazer
Deixe o que amanhã viver.
Hoje, Délia, é nossa a vida;
Amanhã… o que há-de ser?
A hora de amor perdida
Quem sabe se há-de volver?
Não desperdices, querida,
A duvidar e a sofrer
O que é mal gasto da vida
Quando o não gasta o prazer.

Almeida Garrett

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Daniel Estrem – “Once Upon A Time – Lyric Pieces Op71 No1” (Edvard Grieg)
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InVersos: Ricardo Reis – Nada fica de nada

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da húmida terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, porque não elas?
Somos contos contando contos, nada.

Ricardo Reis

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Música: Dejan Ilijic – “Kales Bre Andjo”
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InVersos: Guilherme de Faria – Destino Português

Nasci em Portugal. E, peregrino
De caminhos de luz, vi no degredo
Mais vil, a minha pátria que tão cedo
Deixara de brilhar no céu divino.

Assim, perdido errei, moço e menino;
Mas, entre as sombras de remorso e medo,
Ouvi a voz dos astros, em segredo,
Embalando, a cantar, o meu destino.

E então, viram meus olhos, a sorrir,
Além da noite, e a noite trespassando,
A esperança de Deus, a cintilar…

E eis a graça do céu, que eu vim cumprir:
Amar, viver – mas a sonhar, cantando,
E, como E-Rei, morrer – mas devagar!

Guilherme de Faria

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Música: Hans Christian – “In the Chapel at St. Ives No.3”
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InVersos: Guilherme de Faria – Desolação

Oh Morte escura, nesta ansiedade,
Tão só no mundo, já sem o abrigo,
Dum vago sonho, duma saudade,
Sonho contigo.

Cheio de mágoas, apenas vejo
Mágoas e luto, por toda a parte…
— Ah, vem, oh Morte, que, assim, desejo
Talvez, amar-te.

Vem! — que o meu sonho de primavera,
O amor, a graça que o céu me deu,
Em fria cinza de vã quimera,
Tudo morreu!

Ai, vida minha, luz dos meus olhos,
Não mais te quero sonhar, nem ver!
E vem, oh Morte, fechar-me os olhos,
Para esquecer.

Guilherme de Faria

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Música: Daniel Estrem – “Gnossienne 3” (E Satie)
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InVersos: Ricardo Reis – Vivem em nós inúmeros

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.

Ricardo Reis

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Música: Dejan Ilijic – “Si Zaljubiv”
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InVersos: António Cabral – Aposto ao “Homem Mensura”

As palavras húmidas
Do suor nascido
E corrido das
Paredes do cérebro;

As palavras idas
No corpo do vento,
Vindas no comboio
Noturno dum sonho;

As palavras dadas
Na respiração
Dos poros, nas mãos
Marcadas de terra;

Essas é que dão
Lugar à ternura
E gritam o homem
Dos pés à cabeça.

Palavras que sejam
O ritmo do sangue
E tenham a altura,
Toda duma alma;

Palavras talhadas
A’ feição dos ossos!
Essas e só essas
Nos encontram, homens

Com os pés de argila
Pegados à noite
E os olhos furando
A última galáxia.

António Cabral

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Música: Peggy Duquesnel – “Kiwi Friend”
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InVersos: António Cabral – Douro, meu belo país

Douro, meu belo país do vinho e do suor,
bárbaro canto arrancado à penedia
por um destino que nos faz andar
da alma para os olhos, dos olhos para alma!
Douro, eh lá, uma nova era se anuncia
e traz aos nossos ouvidos uma promessa de rosas.
Ouço já o crepitar das metralhadoras da paz,
esses corações de aço que se chamam tractores.
Ouço-os e uma visão de terra alegre,
alegre como um tesoiro descoberto,
rasga-se, sob o nosso espanto, na tua carne.
Não mais as horas fechadas como punhos
e os morros inóspitos de carqueja bravia.
O tempo estender-se-á na nossa esperança,
claro, claro como um leito nupcial;
nos valados correrá um sol caudaloso,
fulminando, ao seu contacto, os fantasmas da miséria.
Eh lá, Douro, meu belo cavaleiro enamorado
por uma dama que fugia na tua angústia,
depõe, finalmente, os velhos trapos
de matagais, escombros e vinhas amortecidas.
As enxadas deixarão de cavar o desespero;
o ferro e a pá arrumar-se-ão nos arquivos da memória.
Onde irá o tempo das vacas magras
quando um tractor cantar em cada monte
a deliciosa canção da fecundidade?!
Haverá muitos tractores, haverá mais armas
apontadas aos baluartes da fome.
Haverá mais pão, haverá mais rosas.
Eh Douro, meu belo país!

António Cabral

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Música: Mundi – “Apple Howling”
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InVersos: Luciana Nobre – Quarto escuro

Estas horas em que me arrasto
são contadas no pulsar das minhas veias
frias

por mim trafegam esperanças desfalecidas
sonhando o instante em que a despedida da saudade rompa
calmo e lento
as intrincadas cadeias
-feito raízes no tempo-
por entre as quais se escondem os sussurros de euforia
e paz

é que me corre a ânsia infinda
-quase morna de tanto doer-
de que à fresta de meus olhos
-então cerrados-
invada o feitiço
que transforma ais noturnos
na mais doce sinfonia fúnebre
ao escoar de meu sangue
a bafejar de vida
as paredes de mim
alma vestida de penumbra…
sedenta de luz…

Luciana Nobre

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Música: Viviana Guzman – “Soul’s Journey”
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InVersos: Teresa Almeida Subtil – Despida

Chamaram-me à rua do Carmo
para me perguntarem: que escreves tu?
E eu, sem saber por onde vou, respondo:
está nu o meu verso, sem arpejo,
a rima anda solta nos poemas que leio,
nos peitoris das janelas que namoram o Tejo,
mesmo que o não vejam.

Cegos os meus versos dão-se aos dedos
para que apertem os desejos e as penas,
deambulem pelas ruas desoladas,
roubem as cordas às guitarras e toquem,
toquem uma melodia que encha as frinchas da noite,
que ressuscitem a trilha e a harmonia,
que encontrem a poesia perdida algures,
despida.

Teresa Almeida Subtil

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Música: Jonathan James – “Winter Dreams part I”
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InVersos: Lídia Borges – Não desistas já de mim, Poesia

Não desistas de mim, Poesia.
Deixa-te ficar aí sentada
nesse degrau da escada
onde pacientemente me esperas.

Em breve
quando se desvanecer o alvoroço
a que me dou e a quietude vier de novo
morar em mim…
Em breve, poderei receber-te com braços
De bem- querer.
Não agora.
Não agora que não estou trajada para ti.

Perdoa-me este súbito exílio
este coração fechado a tonalidades
e brilhos . Cores, magnificências…

Ainda assim, Poesia,
Não vás, ainda.
Não desistas de mim.

Lídia Borges

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Música: Chris Fields – “Floating”
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InVersos: Lídia Borges – E partiu de novo

Trazia viagens na mala
Mas tantas por cumprir.

Trazia terra nas mãos
Mas migalha a que abraçava em raízes.
Trazia tanta água nos olhos
Mas nenhuma lhe apagava as ausências.

Em si tanto se demoravam as esperas
que um dia, ao acordar, descobriu-se a ave
e cantou longe da voz que lhe anoitecera
a garganta.
Letra a letra rasgou o deserto que lhe secava
nas mãos.
E partiu de novo…

Lídia Borges

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Música: thirty3 – “Session 1”
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InVersos: Lídia Borges – As mãos vazias

As mãos vazias de temporais
de tragédias, de grandezas,
regressam da cidade
sem promessas de paz ou abundância.

Nos campos, a ondulação do pão
perdeu-se do vento e, nas casas,
portas e janelas batem
umas atrás das outras.

Tremulam borboletas de frio e sombra no silêncio
e os homens espalmam-se
contra as paredes a fumar e a navegar
azuladas ondas de fumo,
enquanto os cães vadios
devoram tudo, ao longe.

A terra posa debaixo dos pés
E a prosa, contra a mina vontade,
Ganha limos e lodos como um bote carcomido
à beira de se afundar.

Arranco da poesia
um ramo onde canta um rouxinol
e com ele faço uma jangada para atravessar
o novo dia que já la vem.

Lídia Borges

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Música: Dejan Ilijic – “Abre Makedonce”
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InVersos: Lídia Borges – Da sede ao cardo

Uma casa ao sol
no alto da colina.

Assim podia ser dito
setembro antes da floração
dos cardos.

A luz a rolar mansa
pelas encostas,
uma cantiga de água
aos rés do muro.
Um rebanho de sorrisos
inocentes
a pedir pastoreio.

Um certo modo
de levar à boca o poema
setembro.

Que é das sedas das tuas sílabas
Na minha língua?

Palato, infância
Mãe.

Lídia Borges

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Música: Jonathan James – “The Cherry Now II”
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InVersos: Sofia – É sempre breve

é sempre breve
o tempo de colher
eternidades

longínquo é o instante
de se ajustar
aos ponteiros voláteis
desse mosaico
de ilusões

dos teus lábios
[chama de inenarráveis
intenções]
acolho o que me acolhe
na contramão dos afetos
e sobretudo
a negritude desse chão
onde agora
estendo um alfarrábio
de timbres e estrelas
para que nele adivinhe
a luz percorrendo -me os horizontes
pontuando o tempo
com inabalável exatidão

Sofia

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Música: Dmitry Krasnoukhov – “On the Wave’s Wings”
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InVersos: Manuel Pintor – TV te vês

quem és
no que tu vês
ventríloquo das falas do mundo
pedestal de farsas
de janelas os disfarces
alçapões de verdade
esquecida
sob mantos brancos de mentira

quase me gritas
a ânsia cega
o ócio incestuoso das vaidades
sem vislumbre de pudor
agonizante
em fátuos falsetes
hipérboles arrebatadas

quem és
da vã loucura
no ventre sangrento do mundo
que palavra sagrada
me unges decapitada
e não me ditas

quase me dizes
a hora que desfalece
e calas do embrião a semente
florescente dos tempos
que silêncio incólume
alguma vez desvanece

quase vejo
sem sequer t’ver

Manuel Pintor

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Música: Margaret Maria Tobolowska – “Magik”
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Efeitos Sonoros por connum e qubodup em
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InVersos: Mara da Costa Romaro – Carta da Primavera

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Desta chuva que se cala,
em madrugada que acende em crepúsculo.
Colorem de verde a palidez das montanhas,
e acendem as cores para a visão mais penetrante.
E em instantes
enquadram a poesia dormente,
da timidez cega imposta,
por todos essas momentos agendados.
E por vazios pintados de ilusão,
em ação diária perpétua
repleta de inutilidade.
Nas brechas,
a sagacidade de sorrir
e interrompidos sonhos pueris,
de longínquos lugares verdes
delineados por brotos de flores nascentes.
Antítese do vazio de todos os minutos tomados,
antepondo-se
a todos vazios preenchidos de ocupação,
de algum programa de entretenimento,
ou apenas,
de um sono entorpecente.
E se acendem as cores,
reabrindo as trancadas esperanças.

A delicadeza de uma FLOR,
o poema perfeito
feito
de nenhuma palavra,
porque já diz tudo.

Mara da Costa Romaro

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Música: Sambodhi Prem – “Listening and Disappearing”
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Fotografia: José António Alba
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InVersos: Almada Negreiros – Reconhecimento à Loucura

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar

Almada Negreiros

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Música: Jasmine Brunch – “Perpetual Motion”
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InVersos: António Carlos Santos – Há tempo de choro, chora-se

Há choro…
na porta dos olhos,
na dor e no nada,
na fornalha do tempo,
no tempo extenso
e na extensão das sombras.

Chora-se…
os pesadelos,
as madrugadas intermináveis,
o veneno que se prova,
o silêncio que nos habita
e a solidão que nos consome
em tempo.

Há choro…
nas paredes ancoradas,
nas páginas que se apagam,
na fornalha do tempo,
no tempo das noites frias
e no frio que nos mata.

Chora-se…
nos enganos,
nas águas revoltas,
na frieza morna,
nas palavras do silêncio,
e no silêncio da solidão
do tempo.
há tempo de choro, chora-se

Há choro…
nas cinzas e nos vendavais,
nos abismos que se carregam
na fornalha do tempo,
no tempo parado
e na paragem dos pedaços da vida.

Chora-se!
As lágrimas que não se escorrem
quando se acaba nas sobras do tempo.
E há choro
no tempo que começa e acaba
e no fim da estrada.

António Carlos Santos

Lido e produzido por Rui Diniz

Efeitos Sonoros:
bosk1
de freesound.org

Música:
Mogilalia – “My Old Black Radio”
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InVersos: Almada Negreiros – Canção da Saudade

Se eu fosse cego amava toda a gente.

Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na minha edade.

Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde móras, dize se vives ou se já nasceste.

Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos.

Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.

Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.

Eu amo os cemiterios – as lágens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres bellas rindo-se para mim.

Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.

Se eu fosse cego amava toda a gente.

Almada Negreiros

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Daniel Estrem – “Siciliano from Flute Sonata No 2, BWV 1031, (JS Bach)”
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InVersos: Almada Negreiros – Encontro

Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá prò futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.
O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.
Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.
Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.
Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.

Almada Negreiros

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Daniel Estrem – “Ich Ruf Zu Dir, BWV 639, (JS Bach)”
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InVersos: Almada Negreiros – A sombra sou eu

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

Almada Negreiros

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Daniel Knowler – “Salt Of Wormwood”
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InVersos: Almada Negreiros – Cultura e Civilização

Uma mesa cheia de feijões.
O gesto de os juntar num montão único. E o gesto de os separar, um por um, do dito montão.
O primeiro gesto é bem mais simples e pede menos tempo que o segundo.
Se em vez da mesa fosse um território, em lugar de feijões estariam pessoas. Juntar todas as pessoas num montão único é trabalho menos complicado do que o de personalizar cada uma delas.
O primeiro gesto, o de reunir, aunar, tornar uno, todas as pessoas de um mesmo território é o processo da CIVILIZAÇÃO.
O segundo gesto, o de personalizar cada ser que pertence a uma civilização é o processo da CULTURA.
É mais difícil a passagem da civilização para a cultura do que a formação de civilização.
A civilização é um fenómeno colectivo.
A cultura é um fenómeno individual.
Não há cultura sem civilização, nem civilização que perdure sem cultura.

Almada Negreiros

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Música: Brotha D – “Quick Beat”
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InVersos: Ricardo Silveirinha – O meu querido Chico Silveirinha

Poucos dias antes de morrer, o meu avô, já um esqueleto de pijama, pediu-me para ir à janela do corredor. Já não comia, pouco bebia, a vida já lhe era uma saudade qualquer que ainda lembrava porque é o coração o último soldado a morrer. Nas trincheiras do Hospital, seguimos, passo a passo, devagarinho, ele encostado a mim, eu encostado a ele, os ramos nus dos braços como árvores de Outono e a pele ou branca ou amarela, mas ainda capazes de fazer sentir o sangue, um último sangue que lá dentro pulsava.

Eram talvez dez da noite e as horas não interessavam. Abri a janela, no nariz alentejano do meu avô passou uma brisa, um cheiro a luzes e a Lua. Cheirava a estrelas. Os olhos incendiados de despedida. O meu corpo a abraçá-lo como se eu é que fosse o avô do meu avô. Era noite, a vida estava quase a fechar, e os seus olhos abertos para a última imagem: um céu cheio de pirilampos. Apertou-me o braço, sorriu-me, olhou-me com olhos de criança e eu levei-o à cama para o aconchegar no sono dos sonhos dos sonhos do sono.

Se a vida fosse perfeita como nos maus filmes, então eu teria posto o Carlos do Carmo, que era um amor do meu avô e que também é um amor meu por causa do meu avô. Na sala a respirar o odor da terra do caminho que vai da vida para a morte, em loop o final da «Madrugada»:

«Mas quase, ao romper da aurora, há uma guitarra que chora: saudades da minha vida.»

Ricardo Silveirinha

Lido e produzido por Rui Diniz

Música:
Carlos do Carmo – “Madrugada”

Fado de Alfredo Marceneiro e Fernando Pinto do Amaral

InVersos: Teresa Brinco de Oliveira – Coisas simples

coisas simples são os malmequeres
as papoilas, o rosmaninho
o louro que seca nos sobrados
as amoras que encontramos nas silvas
e comemos

coisas simples são o latir do cão
o canto do galo na quinta
o cheiro a terra lavrada
o regato que corre entre pedras gastas
e não se importa.

coisas simples é olhar o horizonte
e ficar em suspensão
sentindo o levante e o barulho do mar
o cheiro a maresia
e absorver.

de todas as coisas simples
sobraram as cores
e sorrisos largos como os dias
em que me abraças e o tempo se perde
na contagem inútil das horas.

Teresa Brinco de Oliveira

Lido e produzido por Rui Diniz

Efeitos Sonoros:
hitrison
de freesound.org

Música:
François Couture– “Perception 01”
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InVersos: Alberto Caeiro – IX – Sou um Guardador de Rebanhos

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

Lido e produzido por Rui Diniz

Efeitos Sonoros:
bdvictor
de freesound.org

Música:
Ray Carl Daye – “Moving the horizon”
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InVersos: Ailime – Que se faça silêncio

Que se faça silêncio em teus ecos
E os ventos não te arrastem
Pelos bancos alagados dos jardins
Onde jaz a solidão das folhas

Que as tuas mãos, macias
Como musgo a revestir os muros
Se elevem até onde a luz se detém
pensa em pequenos galhos trémulos

Que os rios e os mares de algas imperfeitas
Deixem que os búzios regressem à praia
Onde outrora deixaste esculpida
A claridade dos gestos

Ailime

Lido e produzido por Rui Diniz

Efeitos Sonoros:
bosk1
de freesound.org

Música:
Benji Goodrich – “Longing”
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InVersos: José Carlos Sant Anna – À moda de Portugueses

Cravadas neste deserto
desde sempre serão belas
em suas cores eternas

o silêncio nos impele
ao equilíbrio destas flores
cores por dentro das pedras.

Dançam em luas de sol
em seus contornos irreais
em seus mantos de rainhas

e toda a gente em fila
a meditar de haver vida
teimosa a enfeitar o nada

José Carlos Sant Anna

Lido e produzido por Rui Diniz

Música:
Jasmine Brunch – “Walking past the chapel”
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InVersos: Guaraciaba Perides – Momentos de Cristal

A luz da lua vem pintar paredes
e bordar de rendas
pelo chão da sala…
Penetra pela porta entreaberta
e com sua prata
entram também os sons
de um tempo antigo.
Risos ao longe são vozes de
uma cantoria
que enfeitam a cavatina dos segredos…
A Menina vê com sua alma e sorri
Está escuro mas não sente medo,
pois a magia do luar visita a sala
desse tempo antigo.
Momento delicado e leve de cristal!
O Pai e a Mãe são silenciosos em
seus pensamentos
E a segurança é plena pois há na
luz da alma
a chave do tempo que se escoa…
É noite de verão!
Perfumes de jasmim penetram docemente
e enchem o ar de encanto breve.
O Pai pega o violão,
dedilha algumas notas para
encontrar o tom…
Começa a cantar uma canção de
um tempo  mais antigo ainda e
que fala de beijos ao luar…
A menina sorri em sua alma,
aninha-se no colo da Mamãe
e adormece…
Breves mas eternos Momentos de Cristal!

Guaraciaba Perides

Lido e produzido por Rui Diniz

Música:
Manuel Ochoa – “Tranquilo”
Magnatune.com
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InVersos: Quim Barreiros – O melhor dia para casar

Seja viúva ou solteira
Ou até divorciado
Casar é palavra de ordem
Quando se encontra o bem amado.

Seja velho seja novo
Não há idade para amar
E quando isso acontece
Todos pensam em casar

Contra a vontade dos Pais
Ou com o seu consentimento
Os noivos sonham com o dia,
O dia do casamento.

Um pormenor importante
Que é preciso respeitar
Combinar com a família
O melhor dia p’ra casar.

Qual é o melhor dia para casar
Sem sofrer nenhum desgosto
O trinta e um de Julho,
Porque depois entra Agosto.

Quim Barreiros

Lido e produzido por Rui Diniz

Música:
Hans Christian – “Soften your heart”
Magnatune.com
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InVersos: Manuel Veiga – Poema Quase-Nada

Despenha-se o poeta no vórtice
Qual sarça onde a palavra nasce
E reina. E arde labareda
Feita carne. E lume.

E o olhar rodopia.
Cascata de fogo
E água.

Agora é chama. Que reclama.
E se evapora na distância.
E na ausência-presença
Que se cuida. E guarda.

Poema
Que sendo quase-nada
Se declina. E se proclama
Sinfonia.

Manuel Veiga

Lido e produzido por Rui Diniz

Música:
Ray Montford – “May it begin”
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InVersos: Maria Oliveira – Viagem sem regresso

Abandono os céus sob os quais a espécie humana
Se desflora a si mesma
Onde os mundos da agonia se cruzam
Se enforcam se abusam
Deixo sem vontade de comunicar com o transitório
Com o conflito o sangue o tresloucado o fantasmagórico
Levanto asas rumo à profundidade cósmica
Finalmente descanso hiberno para o invisível
Pois o estado terreno é música cortante
Gesto de amante choro de criança
Grito de mãe bofetada ciúme inveja posse azedume

O medo comprime a criação e o homem
Na guilhotina da paranoia
O sonho expande e transporta as criaturas
Cada vez mais longe para lá
Da pluralidade dos submundos estelares
Por isso não volto!
Deixei de entender a língua afiada dos homens
Corto as amarras sigo outra rota
Rumo à galáxia que não existe
Nunca se alcança
Tal como a linha do horizonte
Que falseia a perceção
Saltito então em forma de vaga-lume
Em campo aberto multicolor melodioso
E eternamente manso

Maria Oliveira

Lido e produzido por Rui Diniz

Música:
Ray Montford – “3 Am”
Magnatune.com
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InVersos: Florentino Alvim Barroso – Espectro

Quem sou eu, donde vim, para onde vou?
Serei quem sinto ser-me, quando sinto?
Ou eu serei, apenas, esse absinto,
Que, outro bebeu e, a mim, me embriagou?

Como a loucura, transtornado estou,
Confuso e torvo como um labirinto.
Ao pressentir, porque me pressinto,
Eu não sei se sou eu, ou se não sou.

De que consiste a minha realidade?
Um fantasma, que surge e me intimida,
Como a mentira em face da verdade?

Página à toa lida e decorada,
Com palavras vãs se explica a Vida,
Se, a ignorância, não explica nada?

Florentino Alvim Barroso

Lido e produzido por Rui Diniz

Música:
Sundancer – “Dark Horizon”

InVersos: Florentino Alvim Barroso – Os Contrários

Eu vi cair a árvore no monte,
Ao fio do machado lenhador,
Como se fora o dia no horizonte,
Caindo, às trovoadas, ao Sol-pôr.

E, vendo-a, derrubada, a mim, defronte
(Corpo, de herói, perdido o destemor),
Era, alterado, o curso duma fonte,
Sobre a sede dum chão, que dera flor.

Foi quando, sobranceiro, um voo de ave,
Passou, volteando a árvore caída,
Ora, piando aflita, ora, suave.

Certo, buscava o ninho e a prole nascida.
E, eu (como ela, aflito, instante e grave),
Também não tive onde poisar a Vida!…

Florentino Alvim Barroso

Lido e produzido por Rui Diniz

Música:
Tryad – “Listen”

InVersos: Joaquim Pessoa – De onde me chegam estas palavras?

De onde me chegam estas palavras?
Nunca houve palavras para gritar a tua ausência
Apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto doía no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.
E não havia um nome para a tua ausência.
Mas tu vieste.
Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?
Tu vieste.
E acordas todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras.
Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.
Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua.

Joaquim Pessoa

Lido e Produzido por Rui Diniz

Música:
G.F. Händel – Concerto para Orgão Opus 7, nº 4, 1º andamento

InVersos: Carmem Grinheiro – Meu Grito


Quero subir
à mais alta montanha e,
lá do píncaro,
estender minha voz
até que se ouça
nos confins do mundo.
Quero gritar,
gritar o mais alto
que a força me permitir.
Soltar minha dor,
deixá-la ir dizer
ao céu
o quão grande ela é,
o quanto
que me deixou sofrer.

Tu, céu,
quando vires o sol
a deitar-se
sobre o horizonte,
essa linha de seda
que teceste
para mostrar
ao Homem
que não te haveria
de alcançar,
lembra-te que
também eu
deito-me todos os dias,
em desiludida agonia,
sobre as mágoas
que me deixaste.

Carmem Grinheiro

InVersos: José Gomes Ferreira – Devia morrer-se de outra maneira (excerto)


Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio”.
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
“Adeus! Adeus!”
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes…
(primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos… )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão sutil… tão pòlen…
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis…

José Gomes Ferreira

InVersos: Vasco Graça Moura – Auto-retrato com a musa


1.

vejo-me ao espelho: a cara
severa dos sessenta,
alguns cabelos brancos,
os óculos por vezes
já mais embaciados.

sobrancelhas espessas,
nariz nem muito ou pouco,
sinal na face esquerda,
golpe breve no queixo
(andanças da gilette).

ia a passar fumando
mais uma cigarrilha
medindo em tempo e cinza
coisas atrás de mim.
que coisas? tantas coisas,

palavras e objectos,
sentimentos, paisagens.
também pessoas, claro,
e desfocagens, tudo
o que assim se mistUra

e se entrevê no espelho,
tingindo as suas águas
de um dúbio maneirismo
a que hoje cedo. e fico
feito de tinta e feio.

2.

quem amo o que é que pode
fazer deste retrato?
nem sabê-lo de cor,
nem tê-lo encaixilhado,
nem guardá-lo num livro,

nem rasgá-lo ou queimá-lo,
mas pode pôr-se ao lado
e ter prazer ou pena
por nos achar parecidos
ou não achar. quem amo

não fica desenhado,
fica dentro de mim
e é quando mais me apago
e deixo de me ver
e apenas me confundo,

amador transformado
na própria coisa amada
por muito imaginar.
assim nem john ashberry,
nem o parmegianino,

nem espelho convexo,
nem mesmo auto-retrato.
só uma sombra que é
na sombra de quem amo
provavelmente a minha.

3.

quem amo tem cabelos
castanhos e castanhos
os olhos, o nariz
direito, a boca doce.
em mais ninguém conheço

tal porte do pescoço
nem tão esguias mãos
com aro de safira,
nem tanta luz tão húmida
que sai do seu olhar,

nem riso tão contente,
contido e comovente,
nem tão discretos gestos,
nem corpo tão macio
quem amo tem feições

de uma beleza grave
e música na alma
flutua nas volutas
de um madrigal antigo
em ondas de ternura.

é quando eu sinto a musa
pousando no meu ombro
sua cabeça, assim
me enredo horas a fio
e fico a magicar.

Vasco Graça Moura

InVersos: Miguel Torga – Gerês e Pátria


Gerês

Há sítios do mundo que são como
certas existências humanas: tudo
se conjuga para que nada falte
à sua grandeza e perfeição.
Este Gerês é um deles.
Acumularam-se e harmonizaram-se
aqui tais forças e contrastes,
tão variados elementos de beleza
e de expressão, que o resultado
lembra-me sempre uma espécie
de genialidade da natureza.

Pátria

Serra!
E qualquer coisa dentro de mim se acalma…
Qualquer coisa profunda e dolorida,
Traída,
Feita de terra
E alma.

Uma paz de falcão na sua altura
A medir as fronteiras:
– Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a bicar estrelas verdadeiras…

Miguel Torga

InVersos: Aurora Gaia – Porque sou Gaia


E porque o meu cabelo alberga flores
Flores da terra e do mar
Peixes coloridos com asas para voar
Tigres alados estrelas resplandecentes
Cidades suspensas dos meus cabelos
Árvores eternas com frutos delicados e agrestes
E mares congelados com barcos de vidro
Eu que sou simplesmente Aurora
Renasci e qual aurora boreal rompi a noite
Com as cores intensas dos meus sentires
Olho-me e sou Geia ou Titeia
No espanto dos meus olhos sou terra sou Gaia
Mãe de Tétis e Reia e Mnosine
Mãe de doze Titãos
Mãe de nove Musas
Mãe e mulher de Úrano que é céu
Mãe geradora de todos os Deuses
E assim do caos de onde nasci
Eu num tormento de maldição
Num esforço titânico vou
Vou sobrevivendo aos meus antepassados
Lá no longe dos Milénios eu
Eu que sou simplesmente Aurora
Em Gaia me tornei

Aurora Gaia

InVersos: Maria Fernanda – Olho nos olhos


Olho nos olhos da multidão.
Encontro resquícios…
Há de tudo um pouco.
Há olhos famintos.
Cansados.
Saudosos.
Irados.
Enganados.
Risonhos.
Falsos.
Hipócritas,
Sinceros,
Transbordantes.
Parados.
Inquietos.
Sensatos.
Sonhadores.
Realistas.
Encantados.
Acanhados.
Felinos,
Maldosos.
Sagazes.
Observadores.
Paro neste, creio que há sabedoria ao redor.
Observa, aprende e ensina.
Olha por dentro da vida.
Pisa com cuidado.
Nas entrelinhas,
Que causa delicadeza na menina dos olhos.

Maria Fernanda

InVersos: Telma Estevão – Cavando palavras


E por vezes a alma
Acorda-me dos sonhos
Com uma voz diluída
E os meus dedos de mármore
Escrevem versos vagos e frios.
Por vezes também a mim me comove
A agonia das sílabas e das consoantes
O soluço profundo
Que emana o altar do poema.

E por vezes o que escrevo
Já foi artigo de saudade
Quimera abençoada, claridade proibida
Alma dobrada afogada em sangue quente.

E por vezes existe dentro de mim
Uma tempestade silenciosa
Um sonho ingénuo
Deitado no quente do meu travesseiro
Um misto de oração e feitiço
Cheirando a incenso.

E por vezes meus espasmos de escrita
Contêm versos transparentes…
Límpidos como o orvalho depositado
Na claridade da manhã.

Telma Estêvão

InVersos: Manuel Pintor – Por ti, amor


por ti, amor
me esqueço das horas
na memória dos dias
janelas sem noite
de uma redoma livre
em ti
incendeio o tempo
na chama que me sobrevive

por ti, amor
a esperança nasce derradeira
na tua pele
mais que sobre a minha

por ti, amor
me arvoro das límpidas raízes
na água das fontes
no húmus dos ventos
sulco meus caminhos
em ti
o monte onde grito
e ouço todo o eco de mim

por ti, amor
eu rio meu choro
atravesso medos nas horas que rumo
a mar maior que toda a dor do mundo

Manuel Pintor

InVersos: Jaime Portela – O verde e moço desatino dos lunáticos


Vivemos por entre furacões
a desgrenharmos o cabelo nas tormentas.
Ficamos bêbados de licores proibidos
e inchados de venenos boquiabertos nos dentes.
Usemos a varinha de condão e,
com artes de magia afortunada,
suspendamos os prantos da boca
e o rezar miserável por chuva no deserto.
Deixemos que a força abatida
seja a mola dos sonhos,
pois há fios coloridos nas nossas mãos a brilhar.
Sonhar é bom, porque nos incendeia
com o verde e moço desatino dos lunáticos.

FELIZ ANO NOVO

Jaime Portela

InVersos: Carla Simone – Todo o azul


Todo o azul é um lençol de cansaço
que se estende sobre mim
Os dias do assombro perderam-se num eco dissonante
que me estremece e esvazia

Nada crio
tudo perco
nada transformo

De que impulsos, de que gestos
é tecida a teia da incógnita viagem?
Perdida na orla do presente, os olhos ainda lestos
projectam o destino
sem nome, sem tempo nem margem

e só as minhas imaginárias asas requerem
o reflexo do lume frio das constelações
e na noite faz-se dia!

Carla Simone

InVersos: Viviane Barroso – Biografia Muda


Minha linguagem é feita de silêncio.
Da densidade sólida que corrói as paredes
De todos os templos.
Prece muda, quase um fluido
Se esvaindo do pensamento…

O verbo que fala de mim, sussurra.
Está noutro tempo,
Noutra rima,
Noutro verso.
Verbo imperfeito
Que não quer virar palavra:
Verbo que cala,
Verbo que morre,
Verbo que mata.

Assim, sou um rascunho
entre junho e julho,
quando o frio é um poema fatigado
de esperar o inverno puro de agosto.

Viviane Barroso

InVersos: Rosa Maria – A noite é uma morte adiada


A noite é uma morte adiada…uma longa prece por dentro do meu corpo…
um beijo de fantasma na minha boca…um rio no mar dos meus olhos…
a erosão de mais um dia…um resumo de horas mortas sem gestos e sem mim…
um manto de escuridão nas paredes frias onde repousam todos os sonhos de amor…
um silêncio adormecido nos braços do cansaço.

A noite é uma lágrima a escorrer das mãos vazias…
um abraço de nudez por entre os ciprestes presos no meu corpo…
infinitas deambulações entre o sono e o sonho…
a negridão de uma rosa numa janela com grades…
num leito obscuro sem gestos…
uma carícia de vento a poisar nos meus olhos…
um suspiro de mar…
as cinzas do amor num poema de solidão que o tempo guardou…
um murmúrio silencioso a roçar a minha pele…um céu vestido de cinza…
os dedos da escuridão a tatuar na alma a ausência…
página em branco de todos os anseios…de todas as lembranças perdidas.

A noite é um trago que não se bebeu…um sorriso que ficou na taça…
um poema na ausência dos lábios…uma rosa que não se tocou…
um corpo que não se desnudou…uma gaivota num cais deserto…
as mãos esquecidas num corpo que não se sentiu…
a saliva do amor que não se fez…o desencontro dos sonhos inventados…
os medos presos nos dedos…os anseios soltos nas mãos…
a sensualidade dum olhar que escureceu…um orgasmo de lençóis vazios.

A noite é o leito do poeta…os remendos da alma…palavras rasgadas…
um afago quase grito…uma rua sem fim…quase abismo…
quase sangue a escorrer das mãos vazias…quase nada…
cama desfeita num corpo abandonado…caminho escuro dos sonhos despidos de vida.

Na noite…morre-me o silêncio no corpo…dói-me o desejo na pele…
morrem-me os sonhos nas mãos vazias…
prende-se a insónia na sombra das madrugadas…
suspensas nas asas frias do silêncio…na sombra negra da morte…
pairando no vazio da vida…esperando…apenas esperando.
Na noite apenas escuridão…o vazio da tua boca e o silêncio dos meus braços…
a nostalgia do meu corpo…a memória onde me deito…vazia de mim.

Rosa Maria

InVersos: Mário Dionísio – Arte Poética


A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,

A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.

A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã

Mário Dionísio

InVersos: Sophia de Mello Breyner Andresen – Os espelhos


Os espelhos acendem o seu brilho todo o dia
Nunca são baços
E mesmo sob a pálpebra da treva
Sua lisa pupila cintila e fita
Como a pupila do gato
Eles nos reflectem. Nunca nos decoram

Porém é só na penumbra da hora tardia
Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio
Que à tona dos espelhos aflora
A luz que os habita e nos apaga:
Luz arrancada
Ao interior de um fogo frio e vítreo

Sophia de Mello Breyner Andresen

InVersos: Manuela Barroso – Troco os meus olhares


Troco os meus olhares com a quietude dos peixes
e vagueio numa ondulação combinada
com o arrepio mastigado das águas
que morrem na indiferença das horas.

Nem o feitiço da luz em relâmpagos no seio das águas lisas
me acordam deste flutuar harmonioso e sereno
numa fusão clandestina
entre o profano e o sagrado.

O meu caminho abre-se
nas clareiras profundas e brancas das areias
em janelas de rostos cristalinos
onde procuro repousar este destino.

Aí,
sou a casa abandonada
no navio que perdeu o leme
e deixou a esperança da alegria
na linguagem impaciente dos mastros

Nem a tarde nem a noite acordam a cumplicidade silenciosa
destas solitárias ondas.

Nelas, abandono as memórias
na quietude da sombra dos juncos.

Manuela Barroso

InVersos: Alice Queiroz – Recolhimento


Partilha comigo, em silêncio, o meu recolhimento
nesta noite longa e melancólica.

Hoje sinto que nada sou, nada tenho,
tudo me parece frágil e sem nexo.

Deixa-te embalar pelo tic-tac do meu velho relógio
de caixa alta que solidário empresta à noite,
mergulhada em silencio, um sinal de vida.
Senta-te aqui, a meu lado, escuta a melodia fascinante
do fogo a crepitar de força e vida nesta noite triste e fria.
As chamas, crepitando, compõem uma nostálgica e
estranha melodia que convidam ao silencio, à meditação e à fuga.
Queria ter-te aqui, sentindo este aroma da lenha queimada.
Queria que caminhasses comigo nas minhas distantes e
mágicas recordações.
Encontro-te por toda a parte! Fundes-te na chuva que cai e
indiscreta me espreita pela janela. Projetas-te no vento
que me bate à porta e chama baixinho o meu nome.
Ressurges esculpida no contorno das sombras para me lembrar
que existo e que há mundo e vida lá fora.
Não vás embora, pelo menos tu Saudade, fica comigo.
Preciso da tua mão amiga a servir-me de bastão para me apoiar
nesta hora que sinto tudo estar fugindo e que eu, nada sou,
nada tenho, a não ser vazio e mágoa.

Alice Queiroz

InVersos: Valter Guerreiro – Navegar é Preciso


Sou aditivo dos horizontes que me fogem tímidos ao olhar
E há muito que a alma me observa dos longes inacessíveis

Respiro apenas dos pulmões das palavras inauditas
E o corpo alheia-se vagamente da febre das mãos

Pairo inútil no assombro da minha ignóbil desutilidade
E ignoro o mais leve justificativo para mover o corpo

Escrevo porque não tenho aonde ir
E não me sinto ridículo

Quem da solidão não morre
Vive a fingir

Palavra a palavra como remos
Folha a folha como mar

É um barco que escrevemos

Que poesia é navegar!

Valter Guerreiro

InVersos: Guimarães Rosa – Soneto da Saudade


Quando sentires a saudade retroar
Fecha os teus olhos e verás o meu sorriso.
E ternamente te direi a sussurrar:
O nosso amor a cada instante está mais vivo!
Quem sabe ainda vibrará em teus ouvidos
Uma voz macia a recitar muitos poemas…
E a te expressar que este amor em nós ungindo
Suportará toda distância sem problemas…
Quiçá, teus lábios sentirão um beijo leve
Como uma pluma a flutuar por sobre a neve,
Como uma gota de orvalho indo ao chão.
Lembrar-te-ás toda ternura que expressamos,
Sempre que juntos, a emoção que partilhamos…
Nem a distância apaga a chama da paixão

Guimarães Rosa

InVersos: Maria Delmond – Sacerdotes e Profetas


Odeie os sacerdotes que vivem sob o hábito.
Esse que lhes esconde as genitálias.
E essas impossíveis de ser proibidas, vedadas, impedidas e nunca constrangidas.
Sempre afoitas e normais.
Até demais por abuso de poder e autoridade.
Talvez esses sejam os mais paralíticos e entrevados de alma…
e que tentam ainda fazer milagres com o dinheiro alheio,
saqueadores templários de todas as eras.
Em todas as facções religiosas, com algumas raras excessões.
Mudando apenas os nomes em suas instituíções.
Porque os profetas… esses por suas profecias, não falta para eles
o ódio e o calabouço e a mordaça.
Eles não vivem das riquezas e da exploração do povo,
não tem cara, casa nem paradeiro.
Transmitem o que recebem do além, proferem e correm
para as cavernas e desertos e montanhas porque desmascaram
sem medo os reis.
Is it!

Maria Delmond

InVersos: Rui Diniz – Pátio Gaivota


Apercebo-me que estou perto.
Um arrepio atravessa-me.
Há muitos anos não estou tão próximo
deste lugar incerto.
Saí de casa um menino,
procurando a lucidez
entre o sábio e o divino,
encontrando na viagem,
nitidez.
Ali está ela,
a casa do canto,
com a mesma porta…
e à volta dela
o mesmo encanto,
do perdido Pátio Gaivota…
Nos vasos, outras flores,
no ar, já sem o veneno
das passadas dores,
transpira um trapo
mais sereno…

A porta abre-se,
revela uma criança de sorriso ardente,
o mesmo sorriso ingénuo
agora de mim tão ausente!
É filha de alguém feliz!
Refugio a vergonha
por detrás de um cigarro,
e quando de lá dentro alguém diz
“Cuidado com algum carro!”…
a criança sonha!
O infante brinca indiferente,
alheio à minha tortura,
infligida pela lembrança
da negrura
desse Pátio Gaivota
do meu tempo de criança!
E este olhar pungente
o meu saber não enxota!
A criança passa correndo
e sou eu que vou lá,
brincando,
ardendo,
sonhando,
perdendo,
fumando,
esquecendo…
que a criança sofrendo,
afinal,
já lá não está.

Rui Diniz

InVersos: Valter Guerreiro – A Lua


Gosto da lua nos flancos da noite
Onde nem os grilos cantam
Só eu.
E ao silêncio peço que me acoite
E ao sol que não venha
Que o sonho é meu
É vasta e funda a intimidade com as azuis raízes do céu
E chovem de todos os poros os fluidos da estupefacção
E ninguém responde
E dos flancos da lua sorvo a prateada solidão das coisas
Na inalação dos detritos antigos do meu vulgar desastre
Negra de cristais de incenso e nua
É a cor deste reciclado espanto
E digo: boa noite meu amor,
Como é bonita a lua!

Valter Guerreiro

InVersos: Lídia Jorge – Cai a chuva no portal


Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa cortina
Não a corras, não a rasgues, está caindo
Fina chuva no portal da nossa vida.
Gotas caem separando-nos do mundo
Para vivermos em paz a nossa vida.

Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa toalha
Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo
Chuva fina no portal da nossa casa.
Por um dia todos longe e nós dormindo
Lado a lado, como páginas dum livro.

Lídia Jorge

InVersos: Luís Pedro Viana – A chuva fina


Miúda e lenta, leve,
Passeia nos meus olhos
Brilhantes cristais pequenos
Cobrindo como manto a cinza atmosfera.
Miúda e lenta menina,
Terna em sossego
Pequenina, muito fina,
Acalma a fúria entre o sonho
No real fogo da fera.
Menina sem voz e canto denso,
Sempre leve com seu manto
Da cor da cinza atmosfera.
Contemplo esta dança do céu
Sem a pressa enervante e lentamente
Anunciar um nascer imaginário
De filhos novos crescendo,
Num simbólico perpétuo movimento
Para dar vida como as contas dum rosário.
É agradável se a sentires igual
Ao borbulhar do champanhe numa festa.
Contínua a dança desta noiva,
Aparece miúda e leve;
Mas alegre!
Desce pequenina, miúda e lenta, leve,
A natureza que te espera como mãe
Se alimenta no ventre, que seja para
Sempre, miúda e lenta…
Não tão breve.

Luís Pedro Viana

InVersos: José Alberto Oliveira – Don’t be happy


Não sofrer menos do que nos destinam,
também não pretender mais por orgulho
ou virtude – habitar um subúrbio,
não escrever versos, ter um crédito
de dias malparado, adormecer culpado.

Não viver com mais ironia do que a vida
nos alcança, mas não desejar menos, por fadiga.
Qualquer sarcasmo seria o pretexto
da partida, mas se os cegos voltam ao conforto
da concertina, ao livro nocturno, por que decidir?

Nem eriçado de vícios, nem abundante em virtudes,
o acordo do senso comum com a sua paixão
e aguardar que aconteça o previsível por inesperado;
um passado perseguido por precauções e dúvidas,
um futuro vulnerável a todos os equívocos.

José Alberto Oliveira

InVersos: Margarida Piloto Garcia – Premonições


Não eram os silêncios que mantinham as bocas afastadas. Era mais aquela quietude do lugar vazio e a ansiedade rija dos dias preguiçosos e abandonados, onde a vida se estilhaçava.

No tempo, escondiam-se os gemidos do corpo a quererem ser quilómetros, enquanto corria atrás da premonição ditada pelo destino. Mas a estrada não era assim tão grande, reduzida que fora a meros centímetros de felicidade.

Desde pequeno que se fazia incólume às cicatrizes, numa astúcia visceralmente concebida, que os anos haviam de aperfeiçoar não dando hipótese a qualquer pedaço de alma remendado.

A mãe dissera-lhe que ele tinha em si esse dom, o código para decifrar sinas.

Nunca acreditara!

Talvez fossem sonhos, ou apenas desejos, aquilo que lhe fazia ver as coisas de uma outra forma, a adivinhar futuros roucos e respirados, na ânsia dos outros que não era a dele. Ele continuava imune ao que profetizava, o vento a assobiar-lhe nas sobrancelhas e as mãos presas na imperfeição seca dos lábios.

Até que tinha acontecido aquele dia!

Ela tinha surgido numa manhã de chuva, como uma arritmia nascida de trovões no peito, uma quase demência assimétrica que tanto o derramava em lágrimas, como lhe soltava o riso.

Tudo o que ele não era, emergia nela. Tudo o que almejava, despertava nela semente, flor e fruto. Nada existia a não ser o sorriso dela, a pele dela, a palavra pendurada no lábio rubro, o gesto tão angelical quanto demoníaco, com que o afagava e possuía. A vida destrambelhava-se louca e impúdica atrelada à premonição desvairada da felicidade eterna.

Porque só podia ser esse dom a dar-lhe tantas certezas, enquanto ele se atrevia a imaginar uma vagarosa eternidade! Nunca sequer lhe tinha passado pela cabeça, que as premonições só servissem aos outros e lhe estivessem negadas e encerradas na fria escuridão.

Agora, passados alguns anos, só sentia mágoa da sua incompetência. Tomara por premonição o sonho e o desejo e descansara no filho da mãe de um destino anunciado e prometido.

E não fora ele o arauto dessa desgraça?

Para quê o esforço inaudito se afinal tudo estava previsto?

Ela passou por ele e seguiu, tão forte como um guerreiro, tão insubmissa e decisiva quanto um sinal vermelho. Ele não percebeu nada, agarrado à fatalidade de uma premonição, sem entender o terror da solidão nas veias.

Agora o silêncio espreguiçava-se nele a consumi-lo numa indolência ofensiva. Na cama vazia não havia odores de sexo selvagem, nem gritos, nem palavras gemidas. No futuro só existia ele, sem espaço para sonhar, sem uma única premonição acertada.

Afinal, tudo o que ele sempre tinha querido, era a incerteza do destino e mãos como asas para voar.

Margarida Piloto Garcia

InVersos: Fernando Namora: Poema para iludir a vida


Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos
[portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje
[o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.

Fernando Namora

InVersos: Guimarães Rosa – Todas as águas dormem


Há uma hora certa,
no meio de noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas de folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…

Mas nem todos dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

Guimarães Rosa

InVersos: Piedade Araújo Sol – Do amor impossível


Ferido o meu coração que sangra e
Dói cada vez mais
Das cinzas renasce a dor
Numa melancolia atroz
Antevendo uma renúncia
No auge duma paixão
De sentimentos inegáveis
Onde só existe contradição

Queria ter sonhos para te dar
Mas só tenho a minha dor
Que não sara a ferida
Que teima em não querer cicatrizar
E a mágoa escorre em gotículas
Onde as lágrimas não tem lugar
Nas manhãs do imaginário
Houve um sonho que não se chegou a realizar

Nosso corpos nunca se tiveram
Nossas bocas nunca se beijaram
Nossas mãos nunca se entrelaçaram
E no entanto sinto falta do teu corpo
Dos teus lábios sobre os meus
Do toque da tua mão
Das palavras sussurradas
No momento da paixão

Não se pode perder
Aquilo que não se tem
E eu sem saber o quê
Sei que perdi
No meu castigo busco o sofrimento
Esperando o perdão para expiar
Um pecado que não cometi

Foste embora e que te importa
Se deixaste meus sonhos
Espalhados pelo chão
Se nas prateleiras do meu medo
A poeira transparece
Por entre os raios de luz
Que a janela da minha solidão
Teima em deixar penetrar

Que te importa se a noite cai
E os fantasmas chegam
Para me povoar o sono
Transformado em pesadelos
Que te importa se terei que aprender
A ser feliz
Ainda que tudo seja falso, triste e onde
Nunca houve lugar para nós
Que nunca fomos nós

Piedade Araújo Sol

InVersos: Al Berto – Acordar tarde


tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva – e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos – e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais – nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

Al Berto

InVersos: Carlos Drummond de Andrade – Salário


Ó que lance extraordinário:
aumentou o meu salário
e o custo de vida, vário,
muito acima do ordinário,
por milagre monetário
deu um salto planetário.
Não entendo o noticiário.
Sou um simples operário,
escravo de ponto e horário,
sou caxias voluntário
de rendimento precário,
nível de vida sumário,
para não dizer primário,
e cerzido vestuário.
Não sou nada perdulário,
muito menos salafrário,
é limpo meu prontuário,
jamais avancei no Erário,
não festejo aniversário
e em meu sufoco diário
de emudecido canário,
navegante solitário,
sob o peso tributário,
me falta vocabulário
para um triste comentário.
Mas que lance extraordinário:
com o aumento de salário,
aumentou o meu calvário!

Carlos Drummond de Andrade

InVersos: Manuel da Fonseca – Poema da menina tonta


A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa na rua,
que a outra metade fica
p’ra namorar-se ao espelho.

A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.

A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel…

No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir…

A menina tonta tem coração sem corda
a boca sem desejos
os olhos sem luz…

E os namorados cansados de namorar…
Eles não sabem que a menina tonta
tem a cabeça cheia de farelos.

Manuel da Fonseca

InVersos: Pedro Belo – Não digas a ninguém


Não digas a ninguém, mas no frio da noite, procuro o calor nos teus braços.
Nos momentos de angústia e desespero, procuro a calma e segurança,
na paz do teu olhar.

Não digas a ninguém, mas é no teu colo que encontro carinho e ternura.
É no teu beijo que encontro desejo e paixão.

Não digas a ninguém, mas és tu que dás sentido há minha vida,
és tu que me motivas para alcançar objectivos,
que me dás força para lutar.

Não digas a ninguém, mas és tu o meu amor eterno…
e sei, que sou e serei sempre o teu.
Mas descansa, não direi a ninguém.

Pedro Belo

InVersos: Mário Dionísio – Memórias de um pintor desconhecido


Os presos contam os dias
eu as horas
nesta prisão maior onde um olhar ficou boiando
e uma voz um som de passos perseguidos
na sombra perseguindo a segurança
fugidia

Na cidade que amo e a sós comigo
é talvez só futuro ou já saudade
com alma bem nascida entre o fragor de máquinas, cimento e energia
atômica indefeso entre irmãos de cárcere demando
a voz que foge os irmãos que não vejo
o brando olhar que guarda o meu desejo
e só consigo
ver o gomoso arrastar das horas e das horas
tantas horas
à baioneta marcadas por uma sentinela
aos quatro cantos da janela
gradeada
do dia-
a-dia onde não há
mais nada

Que nada são os dias e os anos
para um tão grande amor que vou pintando
com o próprio sangue os meus e teus enganos
que há de nascer que há de florir que há de
e há de e há de
quando?

Mário Dionísio

InVersos: Joaquim Namorado – Portwine


O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.
As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
Liberta-te, meu povo! – ou morre.

Joaquim Namorado

InVersos: João José Cochofel – Álcool


Partir
sim, mas partir realmente,
definitivamente,
cobra que deixa a pele já crestada dos sóis
e se empoleira nas árvores como um pássaro

Partir
que os hotéis de luxo têm seus quartos guardados para mim,
e os salões embandeirados de luz
esperam-me
Partir para Jungfraus e Niagaras,
e à noite embriagar-me entre cristais e mulheres!

Depois,
raspar com as unhas no chão e enterrar-me,
deixando os olhos de fora
para que neles poise
o último orvalho da manhã.

João José Cochofel

InVersos: Fiama Hasse Pais Brandão – Natureza morta com louvadeus


Foi o último hóspede a sentar-se
no topo da mesa, já depois do martírio.
As asas magníficas haviam-lhe sido quebradas
por algum vento. Perdera o rumo
sobre a película cintilante de água
no riacho parado. Tal como poisou
junto de nós, com o belo corpo magro
arquejante, lembrava, ainda segundo o seu nome,
um santo mártir. Enquanto meditávamos,
a morte sobreveio, e a pequena criatura,
que viera partilhar a nossa mesa,
depois de ter sido banida das águas
foi banida da terra. Alguém pegou
no volúvel alado corpo morto
abandonado sem nexo na brancura da toalha
– que maculava –
e o atirou para qualquer arbusto raro
que o poeta ainda pôde fotografar.

Fiama Hasse Pais Brandão

InVersos: Maria da Fonte – Fragmentos


Daqui, deste mar, eu vejo a vida
até onde o olhar não pode mais.
Acerto o passo ao ritmo das ondas,
de vaga em vaga, vou divisando o cais.
E neste navegar ergo palavras,
levanto o reino de um tempo já perdido,
pressinto por trás das vagas outras vagas,
paro inerte neste sigo, não sigo.

E ainda que na moldura desse olhar,
eu dispa cada onda no regresso,
retalhe o meu corpo devagar,
entrando lentamente em cada verso.

Maria da Fonte

InVersos: António Boieiro – Outra vez


A existência celebra-se
Em lapsos de memória
Histórias por contar
Palcos por encenar
Telas por pintar
Enquanto as suas cores
São escolhidas na paleta
De um pintor desconhecido
E agora a alma grita-te aos ouvidos
O teu corpo cambaleia e tu cais
Cais… cais… cais… Cais

Caminhas pela terra com nome de homem
Quando deverias ter nome de Deus
E agora já nada mais te diz
A não ser a tua própria sorte

E agora consomes cigarros à pressa
E tomas comprimidos cor-de-rosa
Que nem sabes para que servem

E cais outra vez sem saber porque cais

E cais novamente
só para cair novamente
sem saber por que cais
outra vez

E agora guardas tudo
Dentro de uma caixa:
A tua alma
O teu espírito
A tua vida
A tua morte

E cais outra vez sem saber porque cais

E Deus já não é da tua família
E o Diabo já não é o teu próprio Pai
E
Cais… Cais… Cais… Cais…

Outra vez.

António Boieiro

InVersos: Nilson Barcelli – Há cigarros assim


Hoje, um cigarro deu comigo,
no meio do deserto,
em desalinho.
O fumo tragava amenamente
o sol de uma só cor
e nem sombra de palavras
a espevitar o meu fogo tão mortiço.
Mergulhei em miragens desfocadas
ao alcance falacioso
de um gesto entorpecido.
Vagueei fixo
nas imagens trémulas
para além do horizonte da razão.
Da minha fortaleza,
abatida e conformada,
só enxergava a cidadela enevoada,
derrubada,
asfixiada de sons indecifráveis.
Não me evadi,
desertei cobardemente
para a jaula do silêncio dos meus verbos
nos braços de fantasmas abstractos.
Há cigarros assim…

Nilson Barcelli

InVersos: Cristina Correia – Estranho tempo o tempo de espera


Estranho tempo o tempo de espera
Nas ruas que ninguém vê, as lágrimas rolam nos passeios
nas caixas…
há côdeas, há pobres,
muitos pobres… e fome que se esquece
e dizem os poetas o texto calado mudo surdo
vindimado
Estranho tempo o tempo de espera
É no despontar da noite ao alvorecer dos rios que adormecem as aves
sonham os olhos serenos por entre os flancos pálidos dos vales…
as árvores permanecem eternas
e a povoar o cântico das palavras encontro o texto branco dos pássaros
estranho tempo o tempo de espera
as pedras os passos os livros o olhar ínvio dos gatos
Escrevem-se os dias sem espaço de cor pardacenta
e dizem os poetas o texto calado mudo surdo
vindimado
nas ruas que ninguém vê, as lágrimas rolam nos passeios
nas caixas…
há côdeas, há pobres,
muitos pobres… e fome que se esquece
e dizem os poetas o texto calado mudo surdo
vindimado
solstício de mel, de aromas de vinho,
de canela, de lembranças e de bolinho,
sobre a toalha de renda um farnel recheado
na terra húmida
sente-se vibrar o trepidar forte da natureza mãe
Eis aqui os teus Filhos!
Ainda há abraços fraternos esquecidos.
No recinto sagrado das almas fizeram-se silêncios
e as chuvas caíram
durante três dias e três noites
na terra das palavras plantaram-se folhas de seda
sete abraços enfeitaram pedaços da terra do céu
sete liras cantaram melodias junto dos esquecidos
renasce o odor da terra
estranho tempo o tempo de espera.

Cristina Correia

InVersos: Manoel de Barros – A maior riqueza do Homem


A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

Manoel de Barros

InVersos: Maria José Quintela – inconciliável

a porta. o trinco cerrado. como cerradas estão as mãos
e a boca. e os dias de luz a des.luzir brilhos fátuos em
trajectória  de  adivinhação  e  queda  livre.  chão  de
pedras. sem tapete de pétalas.

o frio. na extensão dos dedos. hirtos. quase imóveis
no  gesto minucioso  de  desfazer  grãos  de  areia  na
engrenagem do pensamento.

um  dique.  um  plano  inclinado.  um  quadrado  geo
gráfico. na imensidão da distância que se conta em
silêncios e mede em palmos. de terra e de vincos. e
bermas sem flores.

o arco. que somos antes das margens se fecharem. o
muro e o tacto. o atrito da noite. a digitar códigos em
sequência de signos. irrespondíveis.

a alma. o corpo sem alfabeto. de guarda. ao argumento
inexacto de um grito cego que não descortina a forma
da boca.

inconciliável a garra e as asas. a guerra.

Maria José Quintela

InVersos: Tiago Galveia – Existe uma pausa


Existe uma pausa antes de entrar na escola, um cigarro com um pé colado ao muro. Um momento de sossego pessoal, pautado pelo barulho inconfundível do espaço que fica nas minhas costas. Passou a ser um hábito adquirido ao longo dos anos, fazer a paragem antes de iniciar o trabalho, por vezes sozinho, já outras, acompanhado.

O que distingue este momento dos outros, é a “senhora de casaco castanho” que sobe a calçada, no seu passo articulado e cadente, vem subindo com a mesma cara de ontem, a mesma feição indistinta da qual não se arranca qualquer emoção, olhos profundamente vazios. Uns dias de capuz a cobrir a face, outros liberta nos seus cabelos, vem subindo postando-se no lado oposto. Observo atentamente cada gesto inexistente, começando a pensar quem será a “senhora de casaco castanho”. Mas, já toca, o filho é um dos primeiros a sair e quando reparo já vão descendo apressados, enquanto um colega questiona-me sobre qualquer coisa usual e desaparece-me o tempo de saber quem ela é. No entanto poderia aproveitar agora para o saber, mas este não é o momento da “senhora de casaco castanho”, talvez amanhã, sim amanhã ou quando o tempo o quiser.

Tiago Galveia

InVersos: Fernando Campos de Castro – Regresso


Eu hei-de voltar aqui em horas serenas
Mas não como pessoa… estou cansado
Como ave talvez, sim, sem estas penas
para voar os voos que hei sonhado

E hei-de correr nu nos campos verdes
E beberei no rio da distância
para matar a fome destas sedes
que me queimam a alma desde a infância

Depois eu abrirei as minhas asas
e pedirei à noite que me aceite
Quando pairar sereno sobre as casas
que não têm lugar onde me deite

No ombro dum penhasco farei ninho
e voarei depois em céu aberto
Tão bêbado de luz, tão louco e tão sozinho….
Finalmente feliz e enfim liberto

Fernando Campos de Castro

InVersos: Margarida Luna de Carvalho – Punhado de ar fresco


Não foi a primeira vez que te vi, já o fiz em surdina, à beira do velho cais baptizado pelo sangue dos que lá desaguaram, dos que por ali adivinharam o seu fim.

E quantos, ali, naquele cais, quando a maré já o reconheceu vezes sem conta, empunharam por mim os punhais?

Quantos já juraram o regresso, quantos já me juraram de morte, quantos já mataram por mim?

Quantos?

Quantos me apertam o braço para não me ir, para não me terem como fantasma durante o tempo em que não consomem a minha carne, em que não me consomem.

Não foi a primeira vez que te vi, por esses becos, que de manhã cheiram a fruta frescas, a peixe e à noite são de maresia… cheiram a prazer, a velas acesas pelas beatas em novena, a roupa despida rapidamente, a bocas tragadas de água ardente barata…

Parado, estavas parado à espera… Esperavas parado pela espera de alguém… Cigarro entre os dedos com a ponta voltada sobre a palma da mão, evitas olhar quem passa à tua frente…

De mim?

De mim não … que me escondo atrás dos cartazes meio rasgados que anunciam o circo, os elefantes e as amazonas que chegaram à cidade…

Sei por que esperas, já tenho visto passar esses homens de mãos calejadas que vão ao teu encontro, nessa aparente despreocupação de quem tem tudo previsto, até os olhares mais luzidios.

Sei que conspiram … Conheço essa chama que arde no peito e leva os homens por esse cais a construir o Novo Mundo.

Por mim?

Por mim não … que me escondo por debaixo destas roupas gastas de tanto vestir e despir e desde baton barato que dá cor aos lábios depois de tanto os morder para não chorar. Tempos houve, em que as minhas roupas eram de trigo e papoilas vermelhas, e o meu perfume vinha da foice e do ramo de oliveira que usava no chapéu de palha.. tempos passados, tempos da minha aldeia, da sombra do meu sobreiro…

Bem te vejo, mãos calejadas … Imagino-as a desenhar a minha cintura … Calejadas … Por redes que rendilham as ruas! Das canastras de fruta meio madura! Da fábrica, do apito sonoro que invade o cais às 17h e me desperta do sono diurno … Ou será dos corpos que percorres com os dedos em noites de suores frios!

Dizem as mulheres do cais, que homens como tu não são dados a amores de poucas horas, nem a camas onde os lençóis são o ar frio….Dizem que andam na Luta, no corpo a corpo, sem navalha, só palavras.

E se te pudesse falar, agora, dizia-te que te consumia por uma braçada de flores, ou por um simples punhado de ar fresco.

Ou quem sabe, só por te ouvir falar…

Margarida Luna de Carvalho

InVersos: Francisco Gonçalves de Oliveira – As árvores do sonho


Não tenho inveja dos poetas.

Também sei enrolar e desenrolar
as tranças do vento
e plantar no charco do tempo
as árvores do sonho.

Não tenho inveja dos poetas.

Também sei montar e desmontar
o cavalo do silêncio
e descobrir
no arfar das tempestades
um búzio de esperança.

Não tenho inveja dos poetas.

Sei adormecer e acordar
dentro do quotidiano.

Francisco Gonçalves de Oliveira

InVersos: Manuel Feliciano – A terra não é mulher


A terra não é mulher
Mulher é fruto de palavras claras
Que habitam o corpo
Quando o corpo anoitece
E não lhe habitam estrelas
Embora na pele lhe nasça trigo
E nas rubras flores os lábios
E nas gotas de orvalho as lágrimas
Na noite tuas pálpebras fechadas
E na luz da manhã teus olhos em flor
A terra não é mulher
Mulher é trigo fora desse trigo de sol e vento
O rosto e o colo que a terra não conhece
A alma que afaga o corpo tão lasso
Que desmaia ao iniciar da lua
É o sabor e o cheiro das flores em beijo
As pálpebras que a terra nunca teve
De olhos interiormente iluminados
As sílabas que a terra não sabe dizer
Onde os rios nascem e há crianças ao sol!

Manuel Feliciano

InVersos: Joaquim Evónio – As ‘Guerras’ de Maria


Arma em riste. Pólvora. Fumo.
Soldado. Granada. Canhão.
Víboras de fogo. Matraqueada.
Bomba. Morteiro. Explosão.

Pés rotos,
cabeça rasgada,
mão sem mão que aponta para nada…
Homem sem Homem,
lobo de si!…

Carne quente,
ossos rubros,
ferro torcido e só…
Ar-noite, selva, lamaçal,
terra, húmus sanguinal…

Silêncio, uivo, grasnido,
mistério, dor, solidão!
Noite, hienas, banquete,
restos, abutres, putrefacção

E tu,
que já nada eras,
pior que as outras feras
ao trair o teu irmão…

Agora és pó.
Lama.
Chão!

joaquim evónio

InVersos: Sérgio Godinho – Arranja-me um emprego


Tu precisas tanto de amor e de sossego
– Eu preciso dum emprego
Se mo arranjares eu dou-te o que é preciso
– Por exemplo o Paraíso
Ando ao Deus-dará, perdido nestas ruas
Vou ser mais sincero, sinto que ando às arrecuas
Preciso de galgar as escadas do sucesso
E por isso é que eu te peço

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

Se meto os pés para dentro, a partir de agora
Eu meto-os para fora
Se dizia o que penso, eu posso estar atento
E pensar para dentro
Se queres que seja duro, muito bem eu serei duro
Se queres que seja doce, serei doce, ai isso juro
Eu quero é ser o tal
E como o tal reconhecido
Assim, digo-te ao ouvido

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

Sabendo que as minhas intenções são das mais sérias
Partamos para férias
Mas para ter férias é preciso ter emprego
– Espera aí que eu já lá chego
Agora pensa numa casa com o mar ali ao pé
E nós os dois a brindarmos com rosé
Esqueço-me de tudo com um por-do-sol assim
– Chega aqui ao pé de mim

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

Se eu mandasse neles, os teus trabalhadores
Seriam uns amores
Greves era só das seis e meia às sete
Em frente ao cacetete
Primeiro de Maio só de quinze em quinze anos
Feriado em Abril só no dia dos enganos
Reivindicações quanto baste mas non tropo
– Anda beber mais um copo

Arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa, concerteza
Que eu dava conta do recado e pra ti era um sossego

Sérgio Godinho

InVersos: Jefferson Dieckman – Notas Distorcidas


Aquela era uma banda
Diferente
Eles tocavam com instrumentos
Desafinados…
E a sua música era assim…
Saía assim…
Com instrumentos
Desafinados…
De propósito,
Por gosto,
Por querer…
Eles queriam
Assim,
Dessa forma…
Bem assim…
A vida deles
Fora dos palcos
Não ia bem…
Casamentos terminados,
Desentendimentos,
Finanças abaladas…
Mas, afinal
A desafinação
Na vida
Não era normal
Também?

Jefferson Dieckmann

InVersos: Manuela Carneiro – Sã


Os loucos são mais loucos de serem lúcidos,
sinceros dos mundos que intuem, velam,
dos deuses os ângulos sábios das paredes

Por isso conquistam a morte nos muros,
empedram a serenidade na promessa exacta,
mastigam pêssegos infinitos na tremura da língua,
reviram os olhos de caroços que rodam e rodam

E babam e babam, escorrem a terra de lábios que lambem e lambem,
chupam na fruta a seiva profunda, o suco da carne alienígena,
espancam os dentes frenéticos na precisão demente do açúcar

Oh! quero um espaço vazio e uma mesa para escrever-lhes

São os eleitos da criação, elucidados e absolvidos,
o entendimento na alucinação das orbitas gustativas

Mostram os lábios sangrados na repetição das unhas,
porque a árvore dedilhada reside-lhes dentro
e irrompem fundo os dedos na boca para trazê-la,
arrastá-la de sangue, desmembrada de braços e raízes,
os deuses pelo veludo descarnado dos pêssegos

Tenho beijos e beijos na boca para esses loucos,
para o tempo que respiram e vomitam as vísceras

Mãos para pentear-lhes os cabelos, demoradamente,
suavemente deslizar-lhes a pele de lábios e línguas

Passa um pássaro, olham e seguem, os ossos

já não voltam

Que tempo e asas levam

Desenham mapas contínuos na migração das aves,
podem a felicidade nessa abalada ininterrupta,
a alma alheada pela loucura apaziguada e livre

Como planam doces as pedras na polpa da fruta

Oh! quero um espaço vazio e uma mesa para escrever-lhes,
cartas e mais cartas, cestos e cestos de melaço

Quero os dentes dos loucos que trincam e trincam, sempre
as línguas geminadas que lambem e lambem e torcem,
a saliva urgente com que serenam os olhos, expurgam o sangue,
a loucura das asas saciadas, brancas, soltas pelo granito

Preciso banhar-me na polpa, no suco dessa demência sã

Manuela Carneiro

InVersos: Maria do Rosário Pedreira – Mãe, eu quero ir-me embora


Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-m
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira

InVersos: Joana Branco – Dias de luar e chuva miudinha…


Em cada esquina. Em cada esplanada de café. Em cada banquinho de jardim. Há fantasmas que não me largam. Coimbra está cheia deles. Deixam perfumes no ar, imundos de nostalgia. E eu acho sempre que um perfume triste não perfuma ninguém. Dois amantes debaixo da chuva miudinha, molha-tolos. Mas eles não o são, pensam eles. Querem lá saber das gripes. Ficam especados a meio da Visconde da Luz, debaixo de uma verdadeira torrente de água, enquanto gente sem chapéu quase os atropela, ao correrem para se abrigar debaixo de um toldo qualquer.
Eles querem lá saber que aquela gente depois os olhe com reprovação. Que os critique. Que os goze. Inveja, é o que é. Eles sabem bem disso. Dou um passo largo e acelero a marcha.
Naquela Praça, nem vivalma. Olho para a fachada do Sereia e não quero pensar que ali se escondem mil segredos. Numa esquina mais acima lê-se We wish you a good trip. A mim não, de certeza. As minhas viagens são sempre conturbadíssimas. A lua já não é o que era.
Cansei-me da Alta. Apanhei o que restava de um trolley e meti-me de novo entre as gentes. A meu lado, numa sala pequena qual alpendre para o rio, alguém fazia desenhos de café. Intimistas, como convém. Que inveja tenho eu dos pintores. Um pintor não deve nada a ninguém. Olha a tela como uma coisa infinitamente sua, ou lhe tem uma paixão doentia, ou um desprezo de morte. É uma amada, uma amante. Num puro jogo de sedução e, no final, ele reclama-a, chama-lhe “dele”. Põe-lhe o seu nome, para que toda a gente saiba que ela lhe pertence para além da eternidade.
Penso que a vida devia ser toda assim. Reclamarmos as coisas que são nossas por direito. Que inveja tenho eu dos pintores! Cheguei à conclusão que precisava urgentemente de um pintor. Que me ensinasse os caminhos a seguir para materializar esta minha tela.
Explode-me no pensamento. Massacra-me, a maldita. Não há maneira de me saíres da cabeça.
Corpos com caras desfiguradas sentados no tal café. Quatro mãos presas em cima de uma mesa. É triste, triste quando alguém não nos sabe prender. E não me venham com essa denguice que não se dever prender ninguém. Quando se gosta, há sempre uma prisão de alma que devia ser perpétua. Pena capital. Sem juiz. Belíssima tortura. E um pintor quer sempre. Que inveja tenho eu dos pintores.
Há amantes que vão dizendo que morrem de amores. Pode-se até morrer de amores, mas sei que o amor morre connosco.
É na boca de outras que os amantes nos beijam. Sufocam-nas de ímpeto. E nós a vé-los. A vê-las. Em sonhos. Morde-se o lábio até escorrer sangue e espera-se o fim, aos bocadinhos, que é como ele chega. Depois os amantes tiram-se das listas telefónicas, dos telemóveís, dos filo-faxes e já se pensa que saíram das nossas vidas de vez.
Muda-se de pessoa. E de vida. Eu andei tempos infindos apavorada no meio das ruas com medo de não esquecer. Com medo de tudo o resto. É na boca de outros que beijamos os amantes.

Joana Branco

InVersos: Teresa Salvado – De cortinados fechados… e com a dor como companheira


Hoje não abri as persianas, não afastei os cortinados. Deixei que, por mais um dia, a dor me consumisse, me rasgasse por dentro… Deixei que a dor tomasse conta de mim até à exaustão, até não poder mais, até quase não ter forças para me arrastar.
Hoje as lágrimas correram-me várias vezes pela cara abaixo e descobri que perdi a vergonha de chorar.
Hoje doeu… por tudo e por nada… mas doeu fundo… muito fundo.
Hoje recusei-me a ver para fora e limitei-me a deixar a dor entranhar-se e partir-me a alma. Enquanto na minha cabeça se limitaram a circular algumas ideias básicas… “porquê?”… “afinal é isto o amor?… um grande amor?”
E contra tudo e contra todos continuo a amar… Mesmo contra mim.
Hoje recusei-me a deixar a luz entrar. Hoje só permiti à tal da dor que circulasse nas minhas águas furtadas.
Mas no meio da dor um alfinete de ouro teima em picar-me para me lembrar que estou viva.
E só dói tanto porque estou viva!!!

Teresa Salvado

InVersos: Adolfo Luxúria Canibal – Tu disseste


Tu disseste “quero saborear o infinito”
Eu disse “a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis”
Tu disseste “sentir a aragem que balança os dependurados”
Eu disse “é o medo o que nos vem acariciar”
Tu disseste “eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a transpôr o limiar da porta”
Eu disse “acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala”
Tu disseste “um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro por descobrir”
Eu disse “…”

Eu disse “o que é que isso interessa?”
Tu disseste “…nada”

Tu disseste “agora procuro o desígnio da vida. às vezes penso encontrá-lo num bater de asas, num murmúrio trazido pelo
vento, no piscar de um néon. escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo. depois queimo tudo e prossigo a minha
busca”
Eu disse “eu não faço nada. fico horas a olhar para uma mancha na parede”
Tu disseste “e nunca sentiste a mancha a alastrar, as suas formas num palpitar quase imperceptível?”
Eu disse “não. a mancha continua no mesmo sítio, eu continuo a olhar para ela e não se passa nada”
Tu disseste “e no entanto a mancha alastra e toma conta de ti. liberta-te do corpo. tu é que não vês”
Eu disse “o que é que isso interessa?”
Tu disseste “…nada”

Eu disse “o que é que isso interessa?”
Tu disseste “…nada”

Adolfo Luxúria Canibal

InVersos: Xavier Zarco – O poema da minha rua


o poema da minha rua teima
em negar a rotação
da terra
enquanto se deita a ver
o sol que nasce e se ergue e se põe
imagina o mesmo que outros
antes dele imaginaram
uma espécie de orfeu e de eurídice
para o sol e a lua
por vezes ambos surgem nas alturas
talvez
diz o poema
seja efeito da música de orfeu
que seus próprios sentidos engana
talvez
como talvez a terra gire em torno
do sol talvez
como talvez não seja efeito algum
de música alguma
mas dos copos bebidos ao final
da tarde no café da dona isilda
e do senhor agostinho
no mercado das almas de freire
talvez
mas não é talvez
a altura em que o poema se consola
livre que está de cirurgias
mesmo que estéticas
dormindo inacabado no caderno
sonhando desejando ali ficar
simplesmente inacabado
porque poema algum deseja o fim
sufocar entre páginas de um livro
condenado ao pó
ao pó da indiferença
enquanto isso
o poeta despede-se do verso
do último verso escrito
como se alguma vez se despedisse
bebe cerveja e pergunta
artur
como andam os gatos

Xavier Zarco

InVersos: Ana Pereira – O Enforcamento


A folha branca arrefece
os astros de fogo
do espaço
escuro do coração.

A Solidão apaga-se
nas palavras graves
que me fazem
ecoar agudamente
dentro de grades
abertas em parágrafos desertos.

Silabo os versos
que escorrem como veneno
que fica contra a pele.
Sinto o sabor a fel
na minha boca.

Não falo contigo.
Não me ouves.
Escrevo-te.
De nada serve!
As Palavras são rígidas.
Apenas maleáveis com a voz.

O corpo torna-se
o rio que escorre lentamente
e contorna os desejos
que afasto com gestos fugitivos.
Fico imóvel,
mas deslizante.

Nada passa
pelo lado de fora,
quando me agarras
por dentro.
Abres-me.
Libertas o meu rosto
no espelho de água
onde me vês.
Suspiras para o céu
onde me crês.

Enforco-me, assim.
Perco a cabeça.
Tudo se reinicia.
Não fica indício
do enforcamento.
Este é o princípio
em ti,
meu amor.

Ana Pereira

InVersos: Sónia M – Tudo à volta se move


Tudo à volta se move.
É firme e seca a terra
e eu sinto que as águas me engolem.

Julguei-me o sonho
mas dele
não sou mais que a névoa.

O provável que afastas
com medo que arda.
A poeira pousada no vestido transparente
da solidão que persegues.

Baixo os braços
cansada
de ficar frente às luzes que acendes.
Uma a uma sopro-as.
A dor tacteia as paredes
mas eu sou
o escuro do quarto que a cega.

Enquanto o silêncio alucina ainda
com o gemido de outras noites
eu emerjo do fundo do poço
sem que os meus lábios beijem as águas.

Sónia M

InVersos: Libânia Madureira – Saudade


A saudade
ofusca-me os dias
tolda-me o pensamento

A tua ausência
são cardos dos dias
que vou vivendo a exorcizar a insónia
essa falta
hoje tão presente
a cada instante
dentro de mim,
turvando meu olhar.

A saudade
ofusca-me os dias,
veste de silêncios as palavras
que por entre as mais se exilam
nos fios de areia quente
das horas estéreis
da ampulheta vigilante.

Tolda-me o pensamento
por entre cristais de silêncios
que imergem na noite escura e fria
da ausência dos sorrisos
que ecoavam pela casa.

Hoje,
a palavra saudade
trespassa
e ofusca as noites estreladas
das conversas inacabadas
e sentimentos indecifráveis.

Amanhã,
espero a brisa do sorriso
que adentra o meu ser do presente,
na construção
das lembranças futuras…

Libânia Madureira

InVersos: Helena Chiarello – [in]construção


…e temos que juntar
tudo outra vez,
recolher espantos
e amontoar de um jeito sólido
todas aquelas coisas
que mesmo com tanto cuidado
se vão quebrando
a cada impacto.

Dizia-me [a minha vontade]
que seria fácil
e repetia-me
e queria mesmo que sim
porque parecia lógico acreditar
que nada se quebraria
[e essas certezas coladas
com sonho-sorriso-esperança
nem deveriam guardar tantas marcas]

…mas temos que juntar
tudo outra vez
[sonhos-certezas-encantos]
e mesmo com tanto cuidado,
só o desejo é intacto.

Helena Chiarello

InVersos: Teresa Gonçalves e Manuela Barroso em Dueto – Liberto o Pensamento

 (Convidado especial: Luís Gaspar)

Deixo  o  pensamento  voar
ele  precisa  de  voar
sem  ser  empurrado  pelo  vento
(cavalo  gigante  a  galopar  sem  rumo)
deixo-o  voar
sem  a  turbulência
das  insónias  salgadasdeixo-o  voar
com  a  liberdade  e  serenidade
do  silêncio
para  poder  estancar  as  águas
e  chegar  ao  cume  da  consciência
sem  conflitos
presentes  e passados

deixo-o  voar
corpo  abandonado
olhos  presos  ao  teto
não  há  longe
não  há  perto
há  o  espaço  cruzado
pela  luz  da  consciência
do  amor  ao  Universo.

Teresa  Gonçalves

Eu…

não me quereria prisioneira
das asas da imaginação que afoga
e perturba o meu voo
esta forma calma de estar
na quietude do meu mar

Não quereria
o ruminar de ideias
na bola de neve que gela o meu raciocínio
Não quereria que a mente perturbasse
o deambular interior no veludo do meu “Eu”
Não quereria perguntas constantes
desta mente que confunde,
me dispersa por veredas errantes
nas escadas do meu peito
em cogitações delirantes
controversas

Na amplidão do consciente
digo não à imaginação
na fertilidade de imagens que inundam o coração
na vertigem das miragens
entrego o meu saber ao Eu que eu sou
no perfume que se evola.

Quero a alegria do Agora
chave da libertação
desta mente que devora

Quero o pensamento
de mãos dadas com a consciência
na iluminação da minha quietude
e paciência

Quero o conhecimento da consciência
que me conduza às profundezas da alma
ao encontro do Ser
que eu Sou.

Aqui,
calarei a voz da mente, nada mais
me perturbará a beleza consciente
do Amor, Alegria e Paz.

É este o alimento
que a libertação me traz.

Manuela Barroso

InVersos: Amália Rodrigues – Horas de vida perdida


Horas de vida perdida
à procura de viver
Vai-se à procura da vida
Não a encontra quem quer

Quem sou eu para dizer
Quem sou eu para o saber
Nem sei se sou ou não sou
Ninguém pode conhecer
Isto de ser e não ser

Sem saber sei entender
Assim sei o que não sei
Sinto que sou e não sou
Entre o que sei e não sei
A minha vida gastei
Sem conseguir entender

Ai quem me dera encontrar
As rimas da poesia
Ai se eu soubesse rimar
Tantas coisas que eu dizia

Amália Rodrigues

InVersos: Maria Guinot – Silêncio e tanta gente

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro o amor em teu olhar
É uma pedra
Ou um grito
Que nasce em qualquer lugar

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um altar onde não estou

Às vezes sou também
O tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar

Às vezes sou também
Um sim alegre
Ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão
E troco a minha vida por um dia de ilusão

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra
Ou um grito
De um amor por acontecer

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p’ra onde vou
E esta pedra
E este grito
São a história d’aquilo que sou

Maria Guinot

InVersos: Susete Viegas – A sombra

Frente a frente
Abracei a minha sombra
Contra o peito!
As almas numa só
Se uniram!
Folheamos o livro branco
Das nossas vidas,
Onde dormiam recordaçöes,
Pequenas flores de pó
Amarelecidas.
Com o olhar indeciso,
Medi o tempo,
Pela fresta da janela,
Por onde lentamente,
Passava a hora!
O dia estendia o véu,
De tule carmesim.
Enquanto serena a noite,
Cobria a terra,
Levando na sombra,
O que restava de mim.

Susete Viegas

InVersos: Isabel Rosete – Somos

Somos o caos
De onde já não se gera a ordem,
Pedaços soltos
Das organizações des-ordenadas.

Somos Micro-fibras,
De um tecido enrugado,
Sem possibilidade de alisamento.

Somos fios da teia intra-mundana
Rarefeita,
Desfeita,
Pelas nossas próprias mãos.

Somos o Tudo e o Nada
O Tempo e o Espaço,
Numa marcha simultânea.

Somos as marés,
Os rios,
Os riachos,
Que nem sempre desaguam
Nos oceanos.

Somos os ventos,
As tempestades,
A chuva ácida,
A rarefacção da atmosfera.

Somos os vulcões e a sua lava
Quente,
Ardente,
Incandescente,
Derramada por montes e vales.

Somos perfeito dinamite,
Sempre pronto a explodir,
Pólvora concentrada
De energias reprimidas.

Os sismos,
Também somos,
E a Terra fazemos estremecer,
Tremer,
Quebrar,
Ruir,
Oscilar.

Somos a poluição
E o dióxido de carbono,
As marés negras
E o lixo cósmico.

Somos os vírus,
As bactérias,
Os fungos,
Que tudo contaminam.

Somos pó,
Putrefacção,
Revestidos de formas
E fórmulas,
Incalculáveis.

Somos a amálgama do Mundo,
Dos céus
E dos mares.

Somos a mescla
De todas as raças,
De todas as cores,
De todos os credos.

Somos os deuses,
Impuros,
Que do Olimpo despejados.

Somos os Astros,
Os Sois,
Que nem sempre brilham,

Somos as faces de todas as Luas,
As giratórias de todos os planetas,
Os anéis de Saturno.

Somos a hipocrisia,
O oportunismo,
A demagogia,

Somos os defensores das causas,
Só em aparência,
Relevantes.

Somos a guerra,
A paz,
A des-ordem
E a ordem.

Somos os guerreiros solitários do Poema,
Das batalhas perdidas
Contra nós,
Contra todos os outros.

Somos o possível
E o impossível,
O sonho,
O real
E o imaginário.

Somos o virtual,
Que se presentifica,
Em cada acto comunicante,
À distância próxima
De todas as comunicações,
Intercontinentais.

Somos todas as lágrimas
Derramadas
E por derramar.

Somos todas as aventuras,
Todos os gestos,
Todos os actos,
Todos os pensamentos.

Somos todas as vontades,
Todos os quereres,
Todos os estares.

Somos?
Somos!
Tão-só,
O que realmente somos.

Isabel Rosete

InVersos: Florentino Alvim Barroso – Homem


Acredite no homem quem quiser.
Eu nele acreditar, não acredito:
Sempre vi, onde um homem estiver,
Ou a hipocrisia ou o delito.

Diga-se dele o bem que se disser
Seu proceder conspurca-lhe o seu rito.
Pois onde um homem num lugar houver,
Mais do que um homem bom, ha um maldito.

Decerto ele tem suas bondades:
Algumas para ver se vai pró Céu,
Outras, unicamente por vaidades.

Este é o homem, descerrado o véu.
Fosse bom a sua cadeia era sem grades,
O juiz, p’ra apenar não tinha réu. . .

Florentino Alvim Barroso

InVersos: Vinicius de Moraes – Poema de Ano Novo

É preciso que nos encontremos diante do amor como as árvores fêmeas cuja raiz é a mesma e se perde na terra profana
É preciso… a tristeza está no fundo de todos os sentimentos como a lágrima no fundo de todos os olhos
Sejamos graves e prodigiosos, ó minha amada, e sejamos também irmãos e amigos.
É preciso que levemos diante de nós o retrato das nossas almas como se fôssemos a um tempo a Verônica e o Crucificado
Eu sou o eterno homem e hoje que a dor fecunda o tempo eu sinto mais que nunca a vontade de fechar os braços sobre a minha miséria.
Fiquemos como duas crianças pensativas sentadas numa escada – todos serão os peregrinos e apenas nós os contemplados.

Vinicius de Moraes

InVersos: SOL da Esteva – Pura verdade

Vida? Viver? Porquê esta ilusão
Dum Sonho que se esvai a cada hora?
Eu não posso deixar que o coração
Se encerre no Amor que ainda lá mora.

Será que as palavras e o pão
Conseguem sustentar um Ser que chora
De fome e sede, de Amor e de Paixão
E apenas a sua Alma se enamora?

Se a Vida é pouca coisa por que valha
Lutar, desisto! Morro nesta malha
Que envolve, lentamente, a humanidade.

Mas sei que o Amor vale esta luta!
Há a voz que fala, a Alma escuta
E se recobra, na pura verdade.

SOL da Esteva

InVersos: João Cardoso – Entardecer


Agora
Que a grande noite
Está chegando
Por que nos deixámos
De falar?!

Nas trevas da grande noite
O brilho dos nossos olhos
Não se poderão encontrar
Nossas mãos, nossos rostos,
Não se poderão mais tocar

Nossas vozes serão silêncio.

Por que não aproveitar
O claro do vermelho do entardecer
Que nos resta?

E dizermos tudo aquilo
Que devíamos ter dito.

João Cardoso

InVersos: Eloah Westphalen Naschenweng – Palavras


Vem… deixe que as palavras
esfreguem as nódoas,
desembaracem os caminhos
e os labirintos que as margeiam,
para que caibam todos os momentos
que estão no seu coração
como páginas avulsas sempre
em sobreaviso
– reflexos de sombras solitárias.

Conceda-lhes o dom de defesa e do diálogo para senti-las agitarem
dentro em si e varrerem as dúvidas e
os resíduos enraizados e  amaciar
o fardo das memórias.

Não haverá veredictos,
mas sim alívio e muita claridade.
Creia, a realidade pode ser surpreendente.

Eloah Westphalen Naschenweng

InVersos: Maria da Fonte – Despotismo

Esta morte sem rosto
que me espera, esta vida
já mais que embaciada,
esta falta de sorte (quem me dera!)
de ser mais que o vazio, ser o nada.

Esta esfinge roçada pelo medo,
esta bravura de matar
quem já morreu, este mundo
redondo onde me enrolo,
na incerteza sequer de que fui eu.

Esta intriga fechada,
deprimente, esta tela descorada
e encardida, este pintar, este dizer
omnipotente,
esta morte apagando esta vida.

Maria da Fonte

InVersos: Cecília Vilas Boas – Sem pressa… a não ser pelos dias simples


Há dias que sinto o aroma das coisas simples
Talvez por que me interesso, nesses dias, por coisas simples
Há dias que nada sinto
Há dias que tudo é simples e os pássaros cantam a aragem dos mesmos dias, simples

Nesses dias, tudo me lembra o amor
Um pássaro, um raio de sol, um rasgo de azul que pinta o céu
Consigo saborear a aragem do mar, sinto-a na pele, cheiro-a e adivinho os desenhos dos corais

Nunca mais morrerei, a não ser que seja num dia simples

Não tenho pressa, por que haveria de ter pressa…?

Quero a lucidez dos dias simples, o toque do vento no meu rosto
Vou para onde ele me levar, em qualquer dia simples
É no colo dos dias simples que me embalo, choro e sorrio
Mas também vivo nos dias de frio, por vezes frio excessivo
Aceito-os porque sei que os dias simples voltarão

Espero-os sempre, num ou noutro dia
Lembro à minha mente o desejo de sentir a quietude que a vida me prometeu
E nesses momentos fico em mim, sossegadamente
À espera dos dias simples.

Cecília Vilas Boas

InVersos: Ricardo Vercesi – Navegando na tua memória

Deixei as certezas na praia
Quando a última onda te levou
E as gaivotas choraram a perda.

Em cada grão de areia
Uma estrela te acolheu
No sal que deixaste preso a mim.

Foste a maré que me trouxe aqui
A saudade de quem parte para a tempestade.
Foste a minha plenitude, a minha verdade.

As marés não pararam o seu balanço.
As gaivotas continuam à tua procura
Na espuma de cada onda que beija a costa.

E eu fico sentado, ali, chorando cada lágrima
Como se mais uma memória tua me sorrisse
E me banhasse na nossa história.

Por fim viajo em mais uma fase da Lua
Regressando sempre ao mesmo lugar
Esta saudade minha e tua será sempre nossa

Seremos sempre nós a navegar.

Ricardo Vercesi