InVersos: Guilherme de Faria – Destino Português

Nasci em Portugal. E, peregrino
De caminhos de luz, vi no degredo
Mais vil, a minha pátria que tão cedo
Deixara de brilhar no céu divino.

Assim, perdido errei, moço e menino;
Mas, entre as sombras de remorso e medo,
Ouvi a voz dos astros, em segredo,
Embalando, a cantar, o meu destino.

E então, viram meus olhos, a sorrir,
Além da noite, e a noite trespassando,
A esperança de Deus, a cintilar…

E eis a graça do céu, que eu vim cumprir:
Amar, viver – mas a sonhar, cantando,
E, como E-Rei, morrer – mas devagar!

Guilherme de Faria

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Hans Christian – “In the Chapel at St. Ives No.3”
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InVersos: Guilherme de Faria – Desolação

Oh Morte escura, nesta ansiedade,
Tão só no mundo, já sem o abrigo,
Dum vago sonho, duma saudade,
Sonho contigo.

Cheio de mágoas, apenas vejo
Mágoas e luto, por toda a parte…
— Ah, vem, oh Morte, que, assim, desejo
Talvez, amar-te.

Vem! — que o meu sonho de primavera,
O amor, a graça que o céu me deu,
Em fria cinza de vã quimera,
Tudo morreu!

Ai, vida minha, luz dos meus olhos,
Não mais te quero sonhar, nem ver!
E vem, oh Morte, fechar-me os olhos,
Para esquecer.

Guilherme de Faria

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Daniel Estrem – “Gnossienne 3” (E Satie)
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InVersos: Ricardo Reis – Vivem em nós inúmeros

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.

Ricardo Reis

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Dejan Ilijic – “Si Zaljubiv”
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InVersos: António Cabral – Aposto ao “Homem Mensura”

As palavras húmidas
Do suor nascido
E corrido das
Paredes do cérebro;

As palavras idas
No corpo do vento,
Vindas no comboio
Noturno dum sonho;

As palavras dadas
Na respiração
Dos poros, nas mãos
Marcadas de terra;

Essas é que dão
Lugar à ternura
E gritam o homem
Dos pés à cabeça.

Palavras que sejam
O ritmo do sangue
E tenham a altura,
Toda duma alma;

Palavras talhadas
A’ feição dos ossos!
Essas e só essas
Nos encontram, homens

Com os pés de argila
Pegados à noite
E os olhos furando
A última galáxia.

António Cabral

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Peggy Duquesnel – “Kiwi Friend”
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InVersos: António Cabral – Douro, meu belo país

Douro, meu belo país do vinho e do suor,
bárbaro canto arrancado à penedia
por um destino que nos faz andar
da alma para os olhos, dos olhos para alma!
Douro, eh lá, uma nova era se anuncia
e traz aos nossos ouvidos uma promessa de rosas.
Ouço já o crepitar das metralhadoras da paz,
esses corações de aço que se chamam tractores.
Ouço-os e uma visão de terra alegre,
alegre como um tesoiro descoberto,
rasga-se, sob o nosso espanto, na tua carne.
Não mais as horas fechadas como punhos
e os morros inóspitos de carqueja bravia.
O tempo estender-se-á na nossa esperança,
claro, claro como um leito nupcial;
nos valados correrá um sol caudaloso,
fulminando, ao seu contacto, os fantasmas da miséria.
Eh lá, Douro, meu belo cavaleiro enamorado
por uma dama que fugia na tua angústia,
depõe, finalmente, os velhos trapos
de matagais, escombros e vinhas amortecidas.
As enxadas deixarão de cavar o desespero;
o ferro e a pá arrumar-se-ão nos arquivos da memória.
Onde irá o tempo das vacas magras
quando um tractor cantar em cada monte
a deliciosa canção da fecundidade?!
Haverá muitos tractores, haverá mais armas
apontadas aos baluartes da fome.
Haverá mais pão, haverá mais rosas.
Eh Douro, meu belo país!

António Cabral

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Mundi – “Apple Howling”
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InVersos: Luciana Nobre – Quarto escuro

Estas horas em que me arrasto
são contadas no pulsar das minhas veias
frias

por mim trafegam esperanças desfalecidas
sonhando o instante em que a despedida da saudade rompa
calmo e lento
as intrincadas cadeias
-feito raízes no tempo-
por entre as quais se escondem os sussurros de euforia
e paz

é que me corre a ânsia infinda
-quase morna de tanto doer-
de que à fresta de meus olhos
-então cerrados-
invada o feitiço
que transforma ais noturnos
na mais doce sinfonia fúnebre
ao escoar de meu sangue
a bafejar de vida
as paredes de mim
alma vestida de penumbra…
sedenta de luz…

Luciana Nobre

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Viviana Guzman – “Soul’s Journey”
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Fotografia: Molly Belle
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InVersos: Teresa Almeida Subtil – Despida

Chamaram-me à rua do Carmo
para me perguntarem: que escreves tu?
E eu, sem saber por onde vou, respondo:
está nu o meu verso, sem arpejo,
a rima anda solta nos poemas que leio,
nos peitoris das janelas que namoram o Tejo,
mesmo que o não vejam.

Cegos os meus versos dão-se aos dedos
para que apertem os desejos e as penas,
deambulem pelas ruas desoladas,
roubem as cordas às guitarras e toquem,
toquem uma melodia que encha as frinchas da noite,
que ressuscitem a trilha e a harmonia,
que encontrem a poesia perdida algures,
despida.

Teresa Almeida Subtil

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Jonathan James – “Winter Dreams part I”
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