InVersos: Rui Romano – Quando me olho ao espelho


Quando me olho ao espelho
não posso levar-me a sério
Como é que vendo os outros
ao espelho natural da vida
os posso levar a sério?
Em realidade,
Constituimos uma fauna curiosa
lutando uns contra os outros
Entredevoramo-nos e
tal como ruminantes
levamos uma vida inteira
a digerir-mo-nos.
Nenhuns sentimentos
expressos por gestos
ou por gritos
serão via de redenção
e os homens
deverão olhar para o espelho
cruamente, desencantadamente, humanamente,
para que a imagem seja real
mesmo que o espelho reflita
a nossa negação.
De nós promana o sangue da vida
leite seminal do descontentamento
sensação absurda de viver
para nada e para ninguém
quando fervilha a vida
à volta de nós e connosco
palpitando como as vísceras dos animais
acabados de abater
na ânsia incontível de devorarmos a vida,
a nossa vida
a vida que vive e se repete
como se repetem as marés
as épocas do cio
E as Estações
a paisagem que nos circunda
e que se move como a lesma
imperceptivelmente
mas move-se
Ritma o nosso pulso
com o pulso do tempo
e flui o nosso
sangue, muitas vezes morto,
fundindo-se ao sangue do tempo
à respiração do tempo.
Somos rodeados por espelhos
infindáveis galerias de espelhos
onde se repetem os nossos gestos
e os gritos restam em esgares
que seriam ridículos
se não fossem trágicos
na face hipócrita dos espelhos.
É impossível corrigir a humanidade
Mesmo quebrando os espelhos
E eu,
francamente,
estou-me nas tintas…

Rui Romano

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InVersos: Bocage – A água

Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.

Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.

Bocage

InVersos: Rita Carrapato – O instante da palavra


No papel vos entrego a palavra
Permito-vos o sentido
E mais
A liberdade do ritmo
da entoação
da voz
do tempo em que a respiras.

A liberdade da invenção para a metáfora.

A partir deste momento desconheço
se a palavra ainda me pertence
Sei que a libertei
para o mar ou para o espaço
Para fora de mim
Para sempre
Para nunca

Talvez que o que é vento
seja agora o meu respirar
O que é mar seja água
Talvez que o que é rio
seja agora vala extensa
onde vos deixo a palavra a correr
Apetecida
Renegada
E de súbito
a palavra foi um instante
Ou talvez não

Rita Carrapato

InVersos: Pablo Neruda – Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos

Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

…Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.

Pablo Neruda