InVersos: Rui Romano – Quando me olho ao espelho



Quando me olho ao espelho
não posso levar-me a sério
Como é que vendo os outros
ao espelho natural da vida
os posso levar a sério?
Em realidade,
Constituimos uma fauna curiosa
lutando uns contra os outros
Entredevoramo-nos e
tal como ruminantes
levamos uma vida inteira
a digerir-mo-nos.
Nenhuns sentimentos
expressos por gestos
ou por gritos
serão via de redenção
e os homens
deverão olhar para o espelho
cruamente, desencantadamente, humanamente,
para que a imagem seja real
mesmo que o espelho reflita
a nossa negação.
De nós promana o sangue da vida
leite seminal do descontentamento
sensação absurda de viver
para nada e para ninguém
quando fervilha a vida
à volta de nós e connosco
palpitando como as vísceras dos animais
acabados de abater
na ânsia incontível de devorarmos a vida,
a nossa vida
a vida que vive e se repete
como se repetem as marés
as épocas do cio
E as Estações
a paisagem que nos circunda
e que se move como a lesma
imperceptivelmente
mas move-se
Ritma o nosso pulso
com o pulso do tempo
e flui o nosso
sangue, muitas vezes morto,
fundindo-se ao sangue do tempo
à respiração do tempo.
Somos rodeados por espelhos
infindáveis galerias de espelhos
onde se repetem os nossos gestos
e os gritos restam em esgares
que seriam ridículos
se não fossem trágicos
na face hipócrita dos espelhos.
É impossível corrigir a humanidade
Mesmo quebrando os espelhos
E eu,
francamente,
estou-me nas tintas…

Rui Romano

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