InVersos: Carla Simone – Todo o azul


Todo o azul é um lençol de cansaço
que se estende sobre mim
Os dias do assombro perderam-se num eco dissonante
que me estremece e esvazia

Nada crio
tudo perco
nada transformo

De que impulsos, de que gestos
é tecida a teia da incógnita viagem?
Perdida na orla do presente, os olhos ainda lestos
projectam o destino
sem nome, sem tempo nem margem

e só as minhas imaginárias asas requerem
o reflexo do lume frio das constelações
e na noite faz-se dia!

Carla Simone

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InVersos: Viviane Barroso – Biografia Muda


Minha linguagem é feita de silêncio.
Da densidade sólida que corrói as paredes
De todos os templos.
Prece muda, quase um fluido
Se esvaindo do pensamento…

O verbo que fala de mim, sussurra.
Está noutro tempo,
Noutra rima,
Noutro verso.
Verbo imperfeito
Que não quer virar palavra:
Verbo que cala,
Verbo que morre,
Verbo que mata.

Assim, sou um rascunho
entre junho e julho,
quando o frio é um poema fatigado
de esperar o inverno puro de agosto.

Viviane Barroso

InVersos: Rosa Maria – A noite é uma morte adiada


A noite é uma morte adiada…uma longa prece por dentro do meu corpo…
um beijo de fantasma na minha boca…um rio no mar dos meus olhos…
a erosão de mais um dia…um resumo de horas mortas sem gestos e sem mim…
um manto de escuridão nas paredes frias onde repousam todos os sonhos de amor…
um silêncio adormecido nos braços do cansaço.

A noite é uma lágrima a escorrer das mãos vazias…
um abraço de nudez por entre os ciprestes presos no meu corpo…
infinitas deambulações entre o sono e o sonho…
a negridão de uma rosa numa janela com grades…
num leito obscuro sem gestos…
uma carícia de vento a poisar nos meus olhos…
um suspiro de mar…
as cinzas do amor num poema de solidão que o tempo guardou…
um murmúrio silencioso a roçar a minha pele…um céu vestido de cinza…
os dedos da escuridão a tatuar na alma a ausência…
página em branco de todos os anseios…de todas as lembranças perdidas.

A noite é um trago que não se bebeu…um sorriso que ficou na taça…
um poema na ausência dos lábios…uma rosa que não se tocou…
um corpo que não se desnudou…uma gaivota num cais deserto…
as mãos esquecidas num corpo que não se sentiu…
a saliva do amor que não se fez…o desencontro dos sonhos inventados…
os medos presos nos dedos…os anseios soltos nas mãos…
a sensualidade dum olhar que escureceu…um orgasmo de lençóis vazios.

A noite é o leito do poeta…os remendos da alma…palavras rasgadas…
um afago quase grito…uma rua sem fim…quase abismo…
quase sangue a escorrer das mãos vazias…quase nada…
cama desfeita num corpo abandonado…caminho escuro dos sonhos despidos de vida.

Na noite…morre-me o silêncio no corpo…dói-me o desejo na pele…
morrem-me os sonhos nas mãos vazias…
prende-se a insónia na sombra das madrugadas…
suspensas nas asas frias do silêncio…na sombra negra da morte…
pairando no vazio da vida…esperando…apenas esperando.
Na noite apenas escuridão…o vazio da tua boca e o silêncio dos meus braços…
a nostalgia do meu corpo…a memória onde me deito…vazia de mim.

Rosa Maria

InVersos: Mário Dionísio – Arte Poética


A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,

A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.

A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã

Mário Dionísio