InVersos: Luciana Nobre – Quarto escuro

Estas horas em que me arrasto
são contadas no pulsar das minhas veias
frias

por mim trafegam esperanças desfalecidas
sonhando o instante em que a despedida da saudade rompa
calmo e lento
as intrincadas cadeias
-feito raízes no tempo-
por entre as quais se escondem os sussurros de euforia
e paz

é que me corre a ânsia infinda
-quase morna de tanto doer-
de que à fresta de meus olhos
-então cerrados-
invada o feitiço
que transforma ais noturnos
na mais doce sinfonia fúnebre
ao escoar de meu sangue
a bafejar de vida
as paredes de mim
alma vestida de penumbra…
sedenta de luz…

Luciana Nobre

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Viviana Guzman – “Soul’s Journey”
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Fotografia: Molly Belle
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InVersos: Teresa Almeida Subtil – Despida

Chamaram-me à rua do Carmo
para me perguntarem: que escreves tu?
E eu, sem saber por onde vou, respondo:
está nu o meu verso, sem arpejo,
a rima anda solta nos poemas que leio,
nos peitoris das janelas que namoram o Tejo,
mesmo que o não vejam.

Cegos os meus versos dão-se aos dedos
para que apertem os desejos e as penas,
deambulem pelas ruas desoladas,
roubem as cordas às guitarras e toquem,
toquem uma melodia que encha as frinchas da noite,
que ressuscitem a trilha e a harmonia,
que encontrem a poesia perdida algures,
despida.

Teresa Almeida Subtil

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Jonathan James – “Winter Dreams part I”
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Fotografia: Elisabetta Foco
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InVersos: Lídia Borges – Não desistas já de mim, Poesia

Não desistas de mim, Poesia.
Deixa-te ficar aí sentada
nesse degrau da escada
onde pacientemente me esperas.

Em breve
quando se desvanecer o alvoroço
a que me dou e a quietude vier de novo
morar em mim…
Em breve, poderei receber-te com braços
De bem- querer.
Não agora.
Não agora que não estou trajada para ti.

Perdoa-me este súbito exílio
este coração fechado a tonalidades
e brilhos . Cores, magnificências…

Ainda assim, Poesia,
Não vás, ainda.
Não desistas de mim.

Lídia Borges

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Chris Fields – “Floating”
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InVersos: Lídia Borges – E partiu de novo

Trazia viagens na mala
Mas tantas por cumprir.

Trazia terra nas mãos
Mas migalha a que abraçava em raízes.
Trazia tanta água nos olhos
Mas nenhuma lhe apagava as ausências.

Em si tanto se demoravam as esperas
que um dia, ao acordar, descobriu-se a ave
e cantou longe da voz que lhe anoitecera
a garganta.
Letra a letra rasgou o deserto que lhe secava
nas mãos.
E partiu de novo…

Lídia Borges

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: thirty3 – “Session 1”
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InVersos: Lídia Borges – As mãos vazias

As mãos vazias de temporais
de tragédias, de grandezas,
regressam da cidade
sem promessas de paz ou abundância.

Nos campos, a ondulação do pão
perdeu-se do vento e, nas casas,
portas e janelas batem
umas atrás das outras.

Tremulam borboletas de frio e sombra no silêncio
e os homens espalmam-se
contra as paredes a fumar e a navegar
azuladas ondas de fumo,
enquanto os cães vadios
devoram tudo, ao longe.

A terra posa debaixo dos pés
E a prosa, contra a mina vontade,
Ganha limos e lodos como um bote carcomido
à beira de se afundar.

Arranco da poesia
um ramo onde canta um rouxinol
e com ele faço uma jangada para atravessar
o novo dia que já la vem.

Lídia Borges

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Dejan Ilijic – “Abre Makedonce”
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InVersos: Lídia Borges – Da sede ao cardo

Uma casa ao sol
no alto da colina.

Assim podia ser dito
setembro antes da floração
dos cardos.

A luz a rolar mansa
pelas encostas,
uma cantiga de água
aos rés do muro.
Um rebanho de sorrisos
inocentes
a pedir pastoreio.

Um certo modo
de levar à boca o poema
setembro.

Que é das sedas das tuas sílabas
Na minha língua?

Palato, infância
Mãe.

Lídia Borges

Lido e produzido por Rui Diniz

Música: Jonathan James – “The Cherry Now II”
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