InVersos: Tiago Galveia – Existe uma pausa


Existe uma pausa antes de entrar na escola, um cigarro com um pé colado ao muro. Um momento de sossego pessoal, pautado pelo barulho inconfundível do espaço que fica nas minhas costas. Passou a ser um hábito adquirido ao longo dos anos, fazer a paragem antes de iniciar o trabalho, por vezes sozinho, já outras, acompanhado.

O que distingue este momento dos outros, é a “senhora de casaco castanho” que sobe a calçada, no seu passo articulado e cadente, vem subindo com a mesma cara de ontem, a mesma feição indistinta da qual não se arranca qualquer emoção, olhos profundamente vazios. Uns dias de capuz a cobrir a face, outros liberta nos seus cabelos, vem subindo postando-se no lado oposto. Observo atentamente cada gesto inexistente, começando a pensar quem será a “senhora de casaco castanho”. Mas, já toca, o filho é um dos primeiros a sair e quando reparo já vão descendo apressados, enquanto um colega questiona-me sobre qualquer coisa usual e desaparece-me o tempo de saber quem ela é. No entanto poderia aproveitar agora para o saber, mas este não é o momento da “senhora de casaco castanho”, talvez amanhã, sim amanhã ou quando o tempo o quiser.

Tiago Galveia

InVersos: Fernando Campos de Castro – Regresso


Eu hei-de voltar aqui em horas serenas
Mas não como pessoa… estou cansado
Como ave talvez, sim, sem estas penas
para voar os voos que hei sonhado

E hei-de correr nu nos campos verdes
E beberei no rio da distância
para matar a fome destas sedes
que me queimam a alma desde a infância

Depois eu abrirei as minhas asas
e pedirei à noite que me aceite
Quando pairar sereno sobre as casas
que não têm lugar onde me deite

No ombro dum penhasco farei ninho
e voarei depois em céu aberto
Tão bêbado de luz, tão louco e tão sozinho….
Finalmente feliz e enfim liberto

Fernando Campos de Castro

InVersos: Margarida Luna de Carvalho – Punhado de ar fresco


Não foi a primeira vez que te vi, já o fiz em surdina, à beira do velho cais baptizado pelo sangue dos que lá desaguaram, dos que por ali adivinharam o seu fim.

E quantos, ali, naquele cais, quando a maré já o reconheceu vezes sem conta, empunharam por mim os punhais?

Quantos já juraram o regresso, quantos já me juraram de morte, quantos já mataram por mim?

Quantos?

Quantos me apertam o braço para não me ir, para não me terem como fantasma durante o tempo em que não consomem a minha carne, em que não me consomem.

Não foi a primeira vez que te vi, por esses becos, que de manhã cheiram a fruta frescas, a peixe e à noite são de maresia… cheiram a prazer, a velas acesas pelas beatas em novena, a roupa despida rapidamente, a bocas tragadas de água ardente barata…

Parado, estavas parado à espera… Esperavas parado pela espera de alguém… Cigarro entre os dedos com a ponta voltada sobre a palma da mão, evitas olhar quem passa à tua frente…

De mim?

De mim não … que me escondo atrás dos cartazes meio rasgados que anunciam o circo, os elefantes e as amazonas que chegaram à cidade…

Sei por que esperas, já tenho visto passar esses homens de mãos calejadas que vão ao teu encontro, nessa aparente despreocupação de quem tem tudo previsto, até os olhares mais luzidios.

Sei que conspiram … Conheço essa chama que arde no peito e leva os homens por esse cais a construir o Novo Mundo.

Por mim?

Por mim não … que me escondo por debaixo destas roupas gastas de tanto vestir e despir e desde baton barato que dá cor aos lábios depois de tanto os morder para não chorar. Tempos houve, em que as minhas roupas eram de trigo e papoilas vermelhas, e o meu perfume vinha da foice e do ramo de oliveira que usava no chapéu de palha.. tempos passados, tempos da minha aldeia, da sombra do meu sobreiro…

Bem te vejo, mãos calejadas … Imagino-as a desenhar a minha cintura … Calejadas … Por redes que rendilham as ruas! Das canastras de fruta meio madura! Da fábrica, do apito sonoro que invade o cais às 17h e me desperta do sono diurno … Ou será dos corpos que percorres com os dedos em noites de suores frios!

Dizem as mulheres do cais, que homens como tu não são dados a amores de poucas horas, nem a camas onde os lençóis são o ar frio….Dizem que andam na Luta, no corpo a corpo, sem navalha, só palavras.

E se te pudesse falar, agora, dizia-te que te consumia por uma braçada de flores, ou por um simples punhado de ar fresco.

Ou quem sabe, só por te ouvir falar…

Margarida Luna de Carvalho