InVersos: Livro de Horas – Miguel Torga

Aqui diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas
O dos facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

Miguel Torga

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InVersos: Augusto Gil – Balada da Neve

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.

Augusto Gil

InVersos: Marta Aguiar – Era uma vez


Era uma vez
Um país de várias cores
Onde as ruas têm nomes de flores
E os sonhos se tornam realidade.
Era uma vez (outra vez)
Uma menina pequena e frágil
(Voava como uma borboleta ágil
Pelos caminhos da felicidade)
Tinha caracóis no cabelo
E sorriso alegre de criança
Os seus olhos, cor de chocolate,
Espelhavam ternura e esperança.
Amar era a sua arte.
E movia-se ao sabor do vento
Que a levava para terras distantes
Desvendando-lhe princesas, infantes,
Noites estreladas e momentos de alento.
Baloiçava entre o imaginário e o real
Subia à mais alta montanha
E agarrava a mais bela estrela
Que acreditava ser o seu mundo ideal.
(Qual sina estranha
A ingenuidade é má façanha!)
A curiosa petiz
Vivia feliz.
Era uma vez…

Marta Aguiar

InVersos: Zeca Afonso – Canção de Embalar


Dorme meu menino a estrela d’alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p’ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d’alva o seu fulgor

Perde a estrela d’alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu’inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

Zeca Afonso

InVersos: Ary dos Santos – Os Gatos


Gosto do gato
do gato gosto
que é animal irracional
de fino gosto.
Tem tanto trato
tanta finura
que mata o rato
com requintes de ternura.
Gosto do gato
do gato gosto
que é animal irracional
de fino gosto.

Lembro que um dia na sacada do meu prédio
havia um gato matulão com malapata
amava ele com paixão mas sem remédio
arisca gata porque aristrocata.

Fazia versos de sardinha prateada
ramos de espinhas com cheirinho a maresia
e a gata persa com esmeraldas na mirada
nunca ligava ao carapau nem à poesia.

Gato vadio animal da vida
gato com cio confessando-se ao luar
gato telhado esfomeado e sem guarida
e a gata persa que só come caviar.

Gatos da rua eriçados de verdade
lambendo os restos que há no fundo do desgosto
gato Cesário dos poemas da cidade
com olhos verdes que é a cor de que eu mais gosto.

Ary dos Santos

InVersos: Al Berto – sida


aqueles que têm nome e nos telefonam
um dia emagrecem – partem
deixam-nos dobrados ao abandono
no interior duma dor inútil muda
e voraz

arquivámos o amor no abismo do tempo
e para lá da pele negra do desgosto
pressentimos vivo
o passageiro ardente das areias – o viajante
que irradia um cheiro a violetas nocturnas

acendemos então uma labareda nos dedos
acordamos trémulos confusos – a mão queimada
junto ao coração

e mais nada se move na centrifugação
dos segundos – tudo nos falta

nem a vida nem o que dela resta nos consola
e a ausência fulgura na aurora das manhãs
e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos
o rumor do corpo a encher-se de mágoa

assim guardamos as nuvens breves os gestos
os invernos o repouso a sonolência
o vento
arrastando para longe as imagens difusas
daqueles que amámos mas não voltaram
a telefonar

Al Berto

InVersos: Rui Diniz – Lvsit’Ana


A tua envolvente natureza pueril
que enche a beleza do espaço esquecido,
vive manchada pela flor seca e rasgada
do amor perdido.
O teu sorriso não é o mesmo desta vez,
Viriato não está contigo… ele morreu.
Roma matou-o e conquistou-te.
O ardil célebre de Saturno roubou o poema ao teu corpo
e rasgou-o com o punhal traiçoeiro, na calada de uma noite.
Desde então tu tens medo dessa noite, tal como da noite de agora.
Nunca mais descansou a tua mente perante a escuridão dessa hora
porque a noite ficou aí marcada de vermelho, salpicada,
e tu permaneceste lá, à sombra dela e desse momento,
sob grades de olhos mareados por ondas de água-dor derramada…
que nunca estancaste.
Tu… tu que amaste,
soubeste que nunca curarias o lamento,
soubeste que nunca serias de novo amada,
compreendeste com uma certeza pétrea que o momento
em que o teu destino se traçou,
foi procurares o teu Rei naquela madrugada.
Os seus olhos não se voltaram a abrir,
tal como os teus não mais secaram.
O luto fechou-se sobre a vontade do teu corpo
e manteve os pensamentos onde as mágoas os fecharam…
Sucumbiste à inalterável realidade à tua frente
diante da qual deste à luz a tua sombra…
A criança sorridente foi perder-se ao bosque amaldiçoado
para que em ti o crime irreversível jamais fosse perdoado!

Então e a fúria?! E o ódio?! E a violência
com que as labaredas então se ergueram do teu ventre,
para consumir o império todo num ápice?!
Juraste vingança bebendo o sangue amado com um cálice!!
Juraste vingança jurando que o sangue derramado seria o deles!!
E aprendeste, no contorcionismo dos espasmos de um único pensamento,
que a tua sede jamais seria saciada!!
Roma violada!! Roma destruída!! Roma queimada!!
Vingança!! – gritaste – Vingança!!
Pois com a morte da Esperança, cujo corpo inerte se quedava no chão,
só te restava a maldição de matar!!
Mate-se o legionário!! E o centurião!!
Derrube-se o império sob a tua mão!!
Foi então que juraste, com todo o teu ser:
lutarás o império, até na luta morrer!…

A morte… incontornável, ela por fim te chegou…
mas da tua existência jamais se apagou a noite,
em cuja madrugada procuraste o Rei, teu amor
e encontraste as vis certezas da morte.
Entende que não há lei para o mais forte.
Roma duplamente venceu,
pois no luto do teu véu de jurada vingança
caíste nos braços secos e frios da mesma sorte
que levou Viriato, que outrora seguia a tua dança.
E hoje, momento em que a paz te podia ter chegado afinal,
tu és Roma, esse inimigo fatal
cujo cruel ardil de Saturno roubou o poema ao teu corpo.
Viriato está morto. Morto e queimado.
E tu afirmas que ele não deixou de ser,
que não é eterno o seu estado…
mas ao teu corpo não voltou a poesia
que só a ele deixavas ler.

Lvsit’Ana, meu amor, mulher brava e bela!
O teu Viriato tantas vezes renasceu.
Mas tu quando o olhas, és como a sentinela
que o seu corpo reconheceu.
Sem te aperceberes,
Roma tomou-te na madrugada,
na primeira
da última vez em que viste o teu amor.
E o império fez então de ti sua soldada
quando Saturno roubou a poesia
à tua mente violada.
Mas a Poesia vive em ti,
na beleza do espaço esquecido
que nunca em ti findou.
Basta que soltes Roma
da madrugada em que te tomou.
Pensas que tua envolvente natureza pueril
nunca terá existido,
manchada que foi pela flor seca e rasgada
do amor perdido.
Mas a fonte do teu brilho de outrora
até mesmo à morte resiste,
pois ela é a qualidade
mais real e intransigente
de tudo
o que em ti existe…

Rui Diniz