InVersos: João José Cochofel – Álcool


Partir
sim, mas partir realmente,
definitivamente,
cobra que deixa a pele já crestada dos sóis
e se empoleira nas árvores como um pássaro

Partir
que os hotéis de luxo têm seus quartos guardados para mim,
e os salões embandeirados de luz
esperam-me
Partir para Jungfraus e Niagaras,
e à noite embriagar-me entre cristais e mulheres!

Depois,
raspar com as unhas no chão e enterrar-me,
deixando os olhos de fora
para que neles poise
o último orvalho da manhã.

João José Cochofel

InVersos: Fiama Hasse Pais Brandão – Natureza morta com louvadeus


Foi o último hóspede a sentar-se
no topo da mesa, já depois do martírio.
As asas magníficas haviam-lhe sido quebradas
por algum vento. Perdera o rumo
sobre a película cintilante de água
no riacho parado. Tal como poisou
junto de nós, com o belo corpo magro
arquejante, lembrava, ainda segundo o seu nome,
um santo mártir. Enquanto meditávamos,
a morte sobreveio, e a pequena criatura,
que viera partilhar a nossa mesa,
depois de ter sido banida das águas
foi banida da terra. Alguém pegou
no volúvel alado corpo morto
abandonado sem nexo na brancura da toalha
– que maculava –
e o atirou para qualquer arbusto raro
que o poeta ainda pôde fotografar.

Fiama Hasse Pais Brandão

InVersos: Maria da Fonte – Fragmentos


Daqui, deste mar, eu vejo a vida
até onde o olhar não pode mais.
Acerto o passo ao ritmo das ondas,
de vaga em vaga, vou divisando o cais.
E neste navegar ergo palavras,
levanto o reino de um tempo já perdido,
pressinto por trás das vagas outras vagas,
paro inerte neste sigo, não sigo.

E ainda que na moldura desse olhar,
eu dispa cada onda no regresso,
retalhe o meu corpo devagar,
entrando lentamente em cada verso.

Maria da Fonte

InVersos: António Boieiro – Outra vez


A existência celebra-se
Em lapsos de memória
Histórias por contar
Palcos por encenar
Telas por pintar
Enquanto as suas cores
São escolhidas na paleta
De um pintor desconhecido
E agora a alma grita-te aos ouvidos
O teu corpo cambaleia e tu cais
Cais… cais… cais… Cais

Caminhas pela terra com nome de homem
Quando deverias ter nome de Deus
E agora já nada mais te diz
A não ser a tua própria sorte

E agora consomes cigarros à pressa
E tomas comprimidos cor-de-rosa
Que nem sabes para que servem

E cais outra vez sem saber porque cais

E cais novamente
só para cair novamente
sem saber por que cais
outra vez

E agora guardas tudo
Dentro de uma caixa:
A tua alma
O teu espírito
A tua vida
A tua morte

E cais outra vez sem saber porque cais

E Deus já não é da tua família
E o Diabo já não é o teu próprio Pai
E
Cais… Cais… Cais… Cais…

Outra vez.

António Boieiro