InVersos: Rosa Maria – A noite é uma morte adiada


A noite é uma morte adiada…uma longa prece por dentro do meu corpo…
um beijo de fantasma na minha boca…um rio no mar dos meus olhos…
a erosão de mais um dia…um resumo de horas mortas sem gestos e sem mim…
um manto de escuridão nas paredes frias onde repousam todos os sonhos de amor…
um silêncio adormecido nos braços do cansaço.

A noite é uma lágrima a escorrer das mãos vazias…
um abraço de nudez por entre os ciprestes presos no meu corpo…
infinitas deambulações entre o sono e o sonho…
a negridão de uma rosa numa janela com grades…
num leito obscuro sem gestos…
uma carícia de vento a poisar nos meus olhos…
um suspiro de mar…
as cinzas do amor num poema de solidão que o tempo guardou…
um murmúrio silencioso a roçar a minha pele…um céu vestido de cinza…
os dedos da escuridão a tatuar na alma a ausência…
página em branco de todos os anseios…de todas as lembranças perdidas.

A noite é um trago que não se bebeu…um sorriso que ficou na taça…
um poema na ausência dos lábios…uma rosa que não se tocou…
um corpo que não se desnudou…uma gaivota num cais deserto…
as mãos esquecidas num corpo que não se sentiu…
a saliva do amor que não se fez…o desencontro dos sonhos inventados…
os medos presos nos dedos…os anseios soltos nas mãos…
a sensualidade dum olhar que escureceu…um orgasmo de lençóis vazios.

A noite é o leito do poeta…os remendos da alma…palavras rasgadas…
um afago quase grito…uma rua sem fim…quase abismo…
quase sangue a escorrer das mãos vazias…quase nada…
cama desfeita num corpo abandonado…caminho escuro dos sonhos despidos de vida.

Na noite…morre-me o silêncio no corpo…dói-me o desejo na pele…
morrem-me os sonhos nas mãos vazias…
prende-se a insónia na sombra das madrugadas…
suspensas nas asas frias do silêncio…na sombra negra da morte…
pairando no vazio da vida…esperando…apenas esperando.
Na noite apenas escuridão…o vazio da tua boca e o silêncio dos meus braços…
a nostalgia do meu corpo…a memória onde me deito…vazia de mim.

Rosa Maria

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