InVersos: Sebastião da Gama – Poema da minha esperança

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Que bom ter o relógio adiantado!…
A gente assim, por saber
que tem sempre tempo a mais,

não se rala nem se apressa…

O meu sorriso de troça,
Amigos!,
quando vejo o meu relógio
com três quartos de hora a mais!…

Tic-tac…Tic-tac…
(Lá pensa ele
que é o fim dos meus dias.)

Tic-tac…
(Como eu rio, cá p´ra dentro,
de esta coisa divertida:
ele a julgar que é já o resto
e eu a saber que tenho sempre mais
três quartos de hora de vida.)

Sebastião da Gama

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InVersos: Ary dos Santos – Quando um homem quiser

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Tu que dormes à noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitros de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Ary dos Santos

InVersos: António Boieiro – A porta


A porta…
A porta encontrava-se
na mais imensa das florestas.
Sinto ainda as veias a gritar
perante a dor dos cortes
provocados por exércitos de espinhos.
Mas eu vi …eu vi, a Porta,
na mais longínqua das florestas
Ali, prostrada …
Fechada, calada, sublime, enorme … a Porta.
Toda a minha vida a procurei;
em antros de dor,
em céus de vermelho manchados,
em rituais de tempos sagrados,
em mundos esquecidos,
em ilusões de realidades incertas,
em êxtases de carne,
em espasmos de volúpia,
em cálices de loucura,
nos meandros do ser,
no labirinto da mente, caminhei …
percorri os caminhos assombrosos do sonho …
Eu fui pesadelo … Procurei … A Porta?
A velhice do meu corpo se apossou.
Já sem forças gritei: A Porta?
Finalmente, a Porta.
E eu sem chave para a abrir …

António Boieiro

InVersos: Florbela Espanca – Amar!


Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca

InVersos: Álvaro de Campos – Ah a frescura na face de não se cumprir um dever!


Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros,
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que’eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
E tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora…
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte… Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

Álvaro de Campos

InVersos: João Villaret – Recado a Lisboa

Lisboa, querida mãezinha
Com o teu xaile traçado
Recebe esta carta minha
Que te leva o meu recado

Que Deus te ajude Lisboa
A cumprir esta mensagem
De um português que está longe
E que anda sempre em viagem

Vai dizer adeus à Graça
Que é tão bela, que é tão boa
Vai por mim beijar a Estrela
E abraçar a Madragoa

E mesmo que esteja frio
E os barcos fiquem no rio
Parados sem navegar
Passa por mim no Rossio
E leva-lhe o meu olhar

Se for noite de São João
Lá pelas ruas de Alfama
Acendo o meu coração
No fogo da tua chama

Depois levo pela cidade
Num vaso de manjericos
Para matar a saudade
Desta saudade em que fico

Vai dizer adeus à Graça
Que é tão bela, que é tão boa
Vai por mim beijar a Estrela
E abraçar a Madragoa

E mesmo que esteja frio
E os barcos fiquem no rio
Parados sem navegar
Passa por mim no Rossio
E leva-lhe o meu olhar

João Villaret