InVersos: Florentino Alvim Barroso – Espectro

Quem sou eu, donde vim, para onde vou?
Serei quem sinto ser-me, quando sinto?
Ou eu serei, apenas, esse absinto,
Que, outro bebeu e, a mim, me embriagou?

Como a loucura, transtornado estou,
Confuso e torvo como um labirinto.
Ao pressentir, porque me pressinto,
Eu não sei se sou eu, ou se não sou.

De que consiste a minha realidade?
Um fantasma, que surge e me intimida,
Como a mentira em face da verdade?

Página à toa lida e decorada,
Com palavras vãs se explica a Vida,
Se, a ignorância, não explica nada?

Florentino Alvim Barroso

Lido e produzido por Rui Diniz

Música:
Sundancer – “Dark Horizon”

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InVersos: Florentino Alvim Barroso – Os Contrários

Eu vi cair a árvore no monte,
Ao fio do machado lenhador,
Como se fora o dia no horizonte,
Caindo, às trovoadas, ao Sol-pôr.

E, vendo-a, derrubada, a mim, defronte
(Corpo, de herói, perdido o destemor),
Era, alterado, o curso duma fonte,
Sobre a sede dum chão, que dera flor.

Foi quando, sobranceiro, um voo de ave,
Passou, volteando a árvore caída,
Ora, piando aflita, ora, suave.

Certo, buscava o ninho e a prole nascida.
E, eu (como ela, aflito, instante e grave),
Também não tive onde poisar a Vida!…

Florentino Alvim Barroso

Lido e produzido por Rui Diniz

Música:
Tryad – “Listen”

InVersos: Joaquim Pessoa – De onde me chegam estas palavras?

De onde me chegam estas palavras?
Nunca houve palavras para gritar a tua ausência
Apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto doía no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.
E não havia um nome para a tua ausência.
Mas tu vieste.
Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?
Tu vieste.
E acordas todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras.
Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.
Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua.

Joaquim Pessoa

Lido e Produzido por Rui Diniz

Música:
G.F. Händel – Concerto para Orgão Opus 7, nº 4, 1º andamento

InVersos: Carmem Grinheiro – Meu Grito


Quero subir
à mais alta montanha e,
lá do píncaro,
estender minha voz
até que se ouça
nos confins do mundo.
Quero gritar,
gritar o mais alto
que a força me permitir.
Soltar minha dor,
deixá-la ir dizer
ao céu
o quão grande ela é,
o quanto
que me deixou sofrer.

Tu, céu,
quando vires o sol
a deitar-se
sobre o horizonte,
essa linha de seda
que teceste
para mostrar
ao Homem
que não te haveria
de alcançar,
lembra-te que
também eu
deito-me todos os dias,
em desiludida agonia,
sobre as mágoas
que me deixaste.

Carmem Grinheiro

InVersos: José Gomes Ferreira – Devia morrer-se de outra maneira (excerto)


Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio”.
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
“Adeus! Adeus!”
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes…
(primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos… )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão sutil… tão pòlen…
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis…

José Gomes Ferreira