InVersos: José Carlos Barros – Uma leitura pública num café de Punta Umbria


Quando leio um poema em voz alta
sinto que as pessoas me olham
como se esperassem uma revelação.
Como se estivessem à espera dos milagres.
E hoje, finalmente, quase cedo à
tentação de explicar os mecanismos
dos milagres. Por exemplo:
eu posso fazer gelo escrevendo apenas
a palavra «gelo». E isso mesmo
faria neste momento
se não temesse que os mais distraídos
usassem o gelo nos copos
altos do gin tónico.

José Carlos Barros

InVersos: Luís de Camões – Descalça vai para a fonte


Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.

Luís de Camões

InVersos: Lupicínio Rodrigues – Loucura

E ai
Eu comecei a cometer loucuras
Era um verdadeiro inferno uma tortura
O que eu sofria com aquele amor

Milhões de diabinhos martelando
Meu pobre coração que agonizando
Já não podia mais ver tanta dor

E ai eu comecei a cantar um verso triste
O mesmo verso que até hoje existe
Da boca triste de um sofredor

Como é que existe alguém
Que ainda tem coragem de dizer
Que os meus versos não contém mensagem
São palavras frias, sem nenhum valor

Oh Deus
Será que o Senhor não esta vendo isto
Então porque o Senhor mandou Cristo
Aqui na terra semear amor

Quando se tem alguém que ama de verdade
Serve de riso pra humanidade
É um covarde fraco, um sonhador

Se é que hoje tudo está tão diferente
Porque não deixa eu mostrar a esta gente
Que ainda existe o verdadeiro amor

Faça ela voltar de novo pra o meu meu lado
Eu me sujeito a ser sacrificado
Salvo seu mundo com a minha dor

Lupicínio Rodrigues

InVersos: Ricardo Galeno – Eu sou a outra

Ele é casado
Eu sou a outra na vida dele
Que vive qual uma brasa
Por lhe faltar tudo em casa

Ele é casado
E eu sou a outra que o mundo difama
E que a vida ingrata maltrata
E sem dó cobre de lama

Quem me condena
Como se condena uma mulher perdida
Só me vê na vida dele
Mas não o vê na minha vida

Não tenho lar
Trago o coração ferido
Mas tenho muito mais classe
Do que quem não soube prender o marido

Ricardo Galeno