InVersos: Inês Ramos – Medito sobre o fim

Meu caro amigo
o fim chegou como uma flecha
e não encontro a chave
para decifrar o último enigma.
Pesam-me as pálpebras e as mãos.
Houve dias em que dancei
troquei beijos
sonhei.
Agora, perto do fim
resta-me a soma das lembranças.
Passada já a última dor
acerto os passos nos últimos versos.
Não me angustia a morte
mas os rios onde não deitei os meus olhos
as pétalas que não toquei
as melodias que não ouvi
as estrelas que não espreitei.
Não vale a pena esquivar o tempo
ir buscar a cana de pesca e abalar para o rio
contar histórias aos peixes que não mordem o isco.
Resta-me ainda nos olhos
um grande reservatório de sonhos
que se embaciam.
Mas nem um vestido negro tenho
para o meu próprio luto.
Meu caro amigo
promete cobrir-me de rosas vermelhas
amanhã.
Sei que vai chover.
Não chores por mim.
Cobre-me de rosas cor de sangue
e segue para casa.
Abre a caixa de selos que te enviei pelo correio
e procura neles
as minhas impressões digitais.
No silêncio da casa
tenta tu compreender a vida
enigma de todos os meus dias
esse traço estranho que me acompanhou sempre
essa etérea luz
nem sempre chama
nem sempre ténue.
O olhar escurece-me
e nestas palavras inúteis
medito sobre o fim.
Aconchego-me na despedida
sem saber o que fui
porque nunca me forneceram

o meu livro de instruções.Inês Ramos

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InVersos: Rui Machado – Há quanto tempo

Há quanto tempo
Fechado em mim
O bem-querer
Que não tem fim
Triste momento
Embalo assim
Sem o saber
Dentro de mim

A lei do tempo
E passo assim
A entreter
Dentro de mim
O sentimento
Minha oração
Por bem-querer
O coração
Largo o pesar
No que sou eu
Dor de cantar
A voz para o céu

Não é favor
Dizer a dor
De sentir
Negando agora
O que outrora
Fez sorrir
Mas no que sente
É bem diferente
A paixão
Quando a saudade
É só verdade
Sem razão

Em tudo existe
Algo de triste
Uma ilusão

Rui Machado

InVersos: Maria João Martins – Desertos de palavras

Entristecem os sorrisos

De coração atado dentro da boca
Não sabem como dizer
Que nas mãos, talvez ainda coubesse o verde das colinas
E nos olhos, a razão de todas as nascentes
Mas a voz exangue é uma escarpa, uma vereda
De saliva quente em poeira azeda
E as sílabas são ruínas dos olhares poentes

Definham no chão, os sorrisos
Na rua só se encontram
Desertos imensos de palavras.

Maria João Martins

InVersos: Camilo Peçanha – Porque o melhor, enfim

Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver…
Passarem sobre mim
E nada me doer!
Sorrindo interiormente,
Co’as pálpebras cerradas,
Às águas da torrente
Já tão longe passadas
Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazerem dano…
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.
Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.
Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva
Que Abril copioso ensope…
E, esvelto, a intervalos

Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.
Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício
Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas…
Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,
Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos…
Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranqüilas,
Em brutos pugilatos
Fraturam-se as maxilas…
E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.

Camilo Pessanha