InVersos: António Boieiro – Outra vez


A existência celebra-se
Em lapsos de memória
Histórias por contar
Palcos por encenar
Telas por pintar
Enquanto as suas cores
São escolhidas na paleta
De um pintor desconhecido
E agora a alma grita-te aos ouvidos
O teu corpo cambaleia e tu cais
Cais… cais… cais… Cais

Caminhas pela terra com nome de homem
Quando deverias ter nome de Deus
E agora já nada mais te diz
A não ser a tua própria sorte

E agora consomes cigarros à pressa
E tomas comprimidos cor-de-rosa
Que nem sabes para que servem

E cais outra vez sem saber porque cais

E cais novamente
só para cair novamente
sem saber por que cais
outra vez

E agora guardas tudo
Dentro de uma caixa:
A tua alma
O teu espírito
A tua vida
A tua morte

E cais outra vez sem saber porque cais

E Deus já não é da tua família
E o Diabo já não é o teu próprio Pai
E
Cais… Cais… Cais… Cais…

Outra vez.

António Boieiro

InVersos: António Boieiro – A porta


A porta…
A porta encontrava-se
na mais imensa das florestas.
Sinto ainda as veias a gritar
perante a dor dos cortes
provocados por exércitos de espinhos.
Mas eu vi …eu vi, a Porta,
na mais longínqua das florestas
Ali, prostrada …
Fechada, calada, sublime, enorme … a Porta.
Toda a minha vida a procurei;
em antros de dor,
em céus de vermelho manchados,
em rituais de tempos sagrados,
em mundos esquecidos,
em ilusões de realidades incertas,
em êxtases de carne,
em espasmos de volúpia,
em cálices de loucura,
nos meandros do ser,
no labirinto da mente, caminhei …
percorri os caminhos assombrosos do sonho …
Eu fui pesadelo … Procurei … A Porta?
A velhice do meu corpo se apossou.
Já sem forças gritei: A Porta?
Finalmente, a Porta.
E eu sem chave para a abrir …

António Boieiro