InVersos: Teresa Salvado – De cortinados fechados… e com a dor como companheira


Hoje não abri as persianas, não afastei os cortinados. Deixei que, por mais um dia, a dor me consumisse, me rasgasse por dentro… Deixei que a dor tomasse conta de mim até à exaustão, até não poder mais, até quase não ter forças para me arrastar.
Hoje as lágrimas correram-me várias vezes pela cara abaixo e descobri que perdi a vergonha de chorar.
Hoje doeu… por tudo e por nada… mas doeu fundo… muito fundo.
Hoje recusei-me a ver para fora e limitei-me a deixar a dor entranhar-se e partir-me a alma. Enquanto na minha cabeça se limitaram a circular algumas ideias básicas… “porquê?”… “afinal é isto o amor?… um grande amor?”
E contra tudo e contra todos continuo a amar… Mesmo contra mim.
Hoje recusei-me a deixar a luz entrar. Hoje só permiti à tal da dor que circulasse nas minhas águas furtadas.
Mas no meio da dor um alfinete de ouro teima em picar-me para me lembrar que estou viva.
E só dói tanto porque estou viva!!!

Teresa Salvado

InVersos: Adolfo Luxúria Canibal – Tu disseste


Tu disseste “quero saborear o infinito”
Eu disse “a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis”
Tu disseste “sentir a aragem que balança os dependurados”
Eu disse “é o medo o que nos vem acariciar”
Tu disseste “eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a transpôr o limiar da porta”
Eu disse “acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala”
Tu disseste “um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro por descobrir”
Eu disse “…”

Eu disse “o que é que isso interessa?”
Tu disseste “…nada”

Tu disseste “agora procuro o desígnio da vida. às vezes penso encontrá-lo num bater de asas, num murmúrio trazido pelo
vento, no piscar de um néon. escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo. depois queimo tudo e prossigo a minha
busca”
Eu disse “eu não faço nada. fico horas a olhar para uma mancha na parede”
Tu disseste “e nunca sentiste a mancha a alastrar, as suas formas num palpitar quase imperceptível?”
Eu disse “não. a mancha continua no mesmo sítio, eu continuo a olhar para ela e não se passa nada”
Tu disseste “e no entanto a mancha alastra e toma conta de ti. liberta-te do corpo. tu é que não vês”
Eu disse “o que é que isso interessa?”
Tu disseste “…nada”

Eu disse “o que é que isso interessa?”
Tu disseste “…nada”

Adolfo Luxúria Canibal