InVersos: Manuela Barroso – Troco os meus olhares


Troco os meus olhares com a quietude dos peixes
e vagueio numa ondulação combinada
com o arrepio mastigado das águas
que morrem na indiferença das horas.

Nem o feitiço da luz em relâmpagos no seio das águas lisas
me acordam deste flutuar harmonioso e sereno
numa fusão clandestina
entre o profano e o sagrado.

O meu caminho abre-se
nas clareiras profundas e brancas das areias
em janelas de rostos cristalinos
onde procuro repousar este destino.

Aí,
sou a casa abandonada
no navio que perdeu o leme
e deixou a esperança da alegria
na linguagem impaciente dos mastros

Nem a tarde nem a noite acordam a cumplicidade silenciosa
destas solitárias ondas.

Nelas, abandono as memórias
na quietude da sombra dos juncos.

Manuela Barroso

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InVersos: Teresa Gonçalves e Manuela Barroso em Dueto – Liberto o Pensamento

 (Convidado especial: Luís Gaspar)

Deixo  o  pensamento  voar
ele  precisa  de  voar
sem  ser  empurrado  pelo  vento
(cavalo  gigante  a  galopar  sem  rumo)
deixo-o  voar
sem  a  turbulência
das  insónias  salgadasdeixo-o  voar
com  a  liberdade  e  serenidade
do  silêncio
para  poder  estancar  as  águas
e  chegar  ao  cume  da  consciência
sem  conflitos
presentes  e passados

deixo-o  voar
corpo  abandonado
olhos  presos  ao  teto
não  há  longe
não  há  perto
há  o  espaço  cruzado
pela  luz  da  consciência
do  amor  ao  Universo.

Teresa  Gonçalves

Eu…

não me quereria prisioneira
das asas da imaginação que afoga
e perturba o meu voo
esta forma calma de estar
na quietude do meu mar

Não quereria
o ruminar de ideias
na bola de neve que gela o meu raciocínio
Não quereria que a mente perturbasse
o deambular interior no veludo do meu “Eu”
Não quereria perguntas constantes
desta mente que confunde,
me dispersa por veredas errantes
nas escadas do meu peito
em cogitações delirantes
controversas

Na amplidão do consciente
digo não à imaginação
na fertilidade de imagens que inundam o coração
na vertigem das miragens
entrego o meu saber ao Eu que eu sou
no perfume que se evola.

Quero a alegria do Agora
chave da libertação
desta mente que devora

Quero o pensamento
de mãos dadas com a consciência
na iluminação da minha quietude
e paciência

Quero o conhecimento da consciência
que me conduza às profundezas da alma
ao encontro do Ser
que eu Sou.

Aqui,
calarei a voz da mente, nada mais
me perturbará a beleza consciente
do Amor, Alegria e Paz.

É este o alimento
que a libertação me traz.

Manuela Barroso

InVersos: Manuela Barroso – Não me perturbes


Não me perturbes.

Quero reclinar o meu peito no regaço da terra
descer num casulo de luz pairar como a bruma
na urze calada e perfumada da serra.

E não perturbes o meu silêncio
que dorme nas folhas das minhas mãos.

Na criança adormecida em mim
ficam as pegadas na presença dos silêncios,
nos diálogos e gestos escritos na areia polida
das minhas palavras.

E não perturbes o meu silêncio
que dorme nas folhas das minhas mãos.

Não perturbes estas folhas que rodeiam o meu corpo
povoando esta alma de música que ninguém ouve.
Não quero miscelâneas no meu poente.
Quero nascer os olhos em bocas de alegria.
Deixa ser-me criança, vestir de novo esta fantasia.

E não per tur bes o meu son ho.
Quero adormecer a noite enganar a lua
morrer o passado nesta inquietação
desta
chama
nua

Manuela Barroso